Cap.
10 –
Fiquei ainda por um tempo contemplando a
lua e pensando na conversa com Melissa. Parece que ela havia derretido seu
coração para compartilhar comigo. Que boba, como se alguma palavra proferida de
sua boca significasse algo pra mim, o interessante e divertido é que pude
perceber que ela tinha inveja de mim, logo ela porquem eu sempre vi muita
altivez e autoconfiança. Uma gota de chuva caiu sobre meu rosto e me despertou,
tratei de vestir o vestido e fui me despedindo do lago, ainda havia muita coisa
que me intrigava e eu precisa descobrir rapidamente.
Passando pela floresta deparei com o
cheiro pútrido da vitima de Melissa, e alguns flashes de nossa conversa
avivaram em minha mente – “veúves
negras”. Seduzir sua vitima e depois matar, ela é como Dãcan, e como vários
outros vampiros que são adeptos do prazer dobrado. Não demorei a estar à
esquina do bairro, o casebre desmoronando sempre buscava minha atenção, não
resisti olhar, mas dessa vez, não havia gatos nem Allan, mas esse garoto estava
em minha lista, e quando eu o encontrasse, talvez hoje ou amanhã no Spark’s,
não sei se é sábado ou domingo que ele costuma frequentar, e então eu terei
algumas respostas vinda de sua própria boca ou de seu sangue.
A figueira balançou fortemente suas
folhagens, talvez fosse só o vento, já que daqui a alguns minutos a chuva
cairia. Mas sei que aquilo me fez lembrar a noite em que entregamos Eric para
Allan. Até hoje eu me pergunto o porquê disso tudo, mas as respostas não vão demorar
em ser respondidas. E eu ainda vou saber o que Allan e Haboryn têm, alias, é
agora.
Acelerei o passo e entrei no bairro,
logo a primeira mansão foi onde parei. John estava na recepção com outro rapaz.
Um tanto jovem e humano, pude sentir pelo cheiro, alto e cabelos castanhos, um
pouco magro.
Toquei a campanhinha e John veio
atender.
- Olá Natasha? Tudo bem – ele perguntou
desconfiado.
- Sim, está tudo ótimo, gostaria de ver
Christine, ela está? – Fui direto ao ponto, nunca me interessei em
cordialidades com John, sempre direto ao ponto.
Ele abriu mais a porta e se afastou,
permitindo assim minha entrada. O rapaz sentado no sofá me olhou envergonhado,
percebi quando suas bochechas coraram, e me cumprimentou abaixando a cabeça, o
cumprimentei da mesma forma e segui adiante. Fui até a cozinha e ela não
estava, subi as escadas e a chamei em seu quarto, mas não a encontrei. - Onde
ela está? Será que esta invisível? – Ri de meus próprios pensamentos. Então
olhei pela janela de seu quarto e a vi dentro de um circulo de pedra no jardim
nos fundos da mansão. Abri a janela e saltei dali mesmo. Quando meus pés
tocaram o chão um trovão rasgou o céu e me fez acuar, de onde eu estava a uns três
metros de Christine eu sentia as rajadas de vento de como se eu tivesse no
penhasco do lago Gander. Tinham algumas velas entre o circulo de pedra, e
permaneciam acesas mesmo com a ventania, só quando as gotas de chuva aumentaram
a precipitação que elas então se apagaram e Christine fez um ritual para poder
sair do circulo.
- Natasha! – Christine arregalou os
olhos quando me viu ali.
- Te assustei? – perguntei debochando de
sua expressão.
- Nunca mais faça isso! Ou da próxima
vez pode ser que por acaso um raio parta o seu crânio! – ela disse cínica
olhando em meus olhos. Apenas sorri.
- Senhora do tempo – comecei a sorrir –
desculpa! Eu não aguentei.
- Entre, vamos ao meu quarto, já bem sei
o que quer aqui – Seus olhos antes vidrados nos meus seguiram a direção da
entrada da mansão, e isso os fez refletir luz como olhos de gato, me fez
arrepiar.
Os lugares por onde agente passava
pareciam tornar mais escuros, e Christine parecia refletir uma aura tão escura.
Subimos as escadas e chegamos a seu quarto. Parece que toda energia foi
descarregada ali, o clima ficou mais leve e ela sentou-se na cama, bateu a mão
sobre o colchão e então eu sentei. Por um longo tempo ela apenas me observou,
até que me senti confortável para falar.
- Christine. Minha velha bruxa. Andei
visitando a casa de Annie e descobri algumas coisas interessantes.
- Prossiga minha menina. - Sua voz saiu
doce.
- Sob o carpete estava todo material que
ela usou no dia da invocação. Ou seja, ela não estava conjurando nada
subjetivo, eu tenho certeza que Haboryn. E se naquela noite ela não tivesse
conseguido conjurá-lo, eu teria sido morta pelo anjo.
- Quais eram os materiais Natasha?
- Um circulo, desenhado uma estrela de
cinco pontas, velas vermelhas, etc.
Ela balançou a cabeça para que eu
continuasse.
- Também tinha uma tira de papel que
dizia “para se livrar vai ter que brincar”. Provavelmente escrito por Allan.
- Sim, Natasha, é notável que Allan,
Annie e Haboryn tiveram muita ligação. Mas precisamos descobrir onde está esse
ponto.
- Sim, e estamos cada vez mais próximo
de descobrir todo esse mistério, talvez assim possamos até identificar onde o
anjo está. Ela tinha um diário, e tem uma passagem onde ela diz que se lembra
como num sonho do casebre, do gato negro e Allan.
- É! Ela não foi por acaso para aquela
casa quando brincou com o copo. Estava tudo premeditado.
As abas da janela do quarto abriram
fortemente numa rajada de vento e a água da chuva começou a entrar. Christine
virou seu rosto levemente em direção e num olhar desconfiado ela só lançou um
olhar e as fechou.
Christine ficou em silencio por alguns segundos,
e aquilo me agoniou, toquei a para fazê-la voltar e me contar o que estava
acontecendo. Então mais uma vez entrei em quadro nostálgico, eu era o seu
olhar, um moço estava atravessando na minha frente, parecia ser a muito tempo,
porque eu não via asfalto ou casas de luxo. E eu não consegui sentir sua
energia e nem descobrir quem era ele.
- Natasha! – Christine chacoalhou meu
corpo.
- Christine? Quem era aquele moço?
- Ninguém Natasha. Talvez ninguém
interessante agora, temos que resolver o seu problema.
Entendi, é constrangedor ter uma pessoa
que pode ver os seus pensamentos que mais significam para você, por perto.
Então relevei e continuamos.
- Temos como descobrir mais? Eu não sei.
Alguma coisa que nos leve até o passado?
- Sim Natasha, tem. – Ela levantou e foi
saindo do quarto. Eu então a segui.
Segui-a até sair da mansão.
- Christine, aonde vai? Perguntei
intrigada.
Ela não respondeu e seguiu a leves
passos. Quando atravessava o portão de entrada do bairro ela colocou o capuz
como se aquilo a protegeria de qualquer mal. A chuva caía intensamente e
enormes rajadas de vento. Meus cabelos vermelhos se tornaram rubros e molhados
por causa da chuva e da preocupação que eu estava passando. Uma ansiedade, eu
nunca havia saido assim junto a Christine, parece que toda aquela história
interessava mais a ela do que a mim. Estava tarde da noite e não havia ninguém
nas ruas por causa da chuva provavelmente, e os que são do bairro, quando viam
que Christine saia de sua mansão segurava forte seus amuletos como se a
temessem mais que tudo.
Após a saída do bairro, não demoramos
para chegar a nosso destino, a pequena casa da esquina.
- Christine. Me diz o que vamos fazer?
Ela me olhou com seus profundos olhos
azuis, que até me lembraram os olhos do anjo.
- Natasha. Se estamos atrás de
respostas, se há realmente uma ligação ou não entre Haboryn e Allan, precisamos
investigar onde tudo começou, ou seja, o primeiro episódio de Annie.
Concordei com a cabeça e apurei meus
sentidos, talvez eu entre em nostalgia e absorver algumas lembranças da casa. A
chuva fazia lama no quintal todo da casa, da porta correu um rato nojento e o
susto fez minhas presas surgirem. Caiu um raio e iluminou toda a casa, uma
sombra se escondeu sorrateiramente no final do casebre.
- Você viu isso?! Perguntei assustada.
- Acalme-se vampira, a casa está
acordando. – o que ela quis dizer com a casa está acordando. Pensei. – Está
ficando de madrugada, e o mal da casa tem acesso a esse mundo, fique sempre
rente a mim e avise sobre qualquer coisa. – Disse Christine erguendo as mãos.
Caminhamos até a figueira, parecia estar
maior do que o era. A chuva parecia mais intensa e pesada ali. Christine
agachou-se e passou a mão sobre a terra logo após a raiz, seus olhos reviraram
e um trovão estrondou o céu, mais que rapidamente apurei minha visão e olhei
para todos os lados, e vi e ouvi passos da sombra entrando na casa. Christine
então se levantou.
- Tem um corpo aqui Natasha. – Ela
disse, e no mesmo instante eu me lembrei de Eric, talvez esteja enterrado ai. –
Um poderoso feitiço está sobre ele, é tal que nem eu possa compreender.
- Vamos desenterrá-lo? – Perguntei em
duvida.
- Não viemos interferir em nenhuma
magia, viemos descobrir ligações, e essa ligação tem haver com um antigo rapaz
que morou aqui, ele só está querendo voltar.
- Você o conheceu? - Perguntei
interessada.
- Não tanto quanto você Natasha. Ela
respondeu olhando em meus olhos.
- O que quer dizer? - Perguntei novamente
intrigada com tudo aquilo.
- Tem coisas de seu passado que você
esqueceu, ou apagou porque não significava mais nada, e eu não sei se tenho
autoridade para lembrá-la.
- Por favor, Christine? Eu preciso saber
de tudo. – estava ficando impaciente, toda aquela palhaçada de me esconder às
coisas já estava me enchendo.
- Vamos continuar Natasha, quando
encontrarmos e voltarmos para casa eu prometo te contar tudo sobre o passado. –
Eu não estava convencida, mas sempre soube estabelecer prioridades, mas não
deixarei isso passar, na próxima oportunidade ela me falará tudo.
- Vamos entrar na casa – Eu disse
decidida.
Ao entrarmos, o barulho da chuva caindo
sobre o teto me fazia doer os ouvidos, é muito úmido, e há goteiras por todo
canto. Christine retirou o capuz e sua expressão estava mostrando um grande
desafio a frente.
- Não preste atenção em nada que ver ou
ouvir. Tudo pode ser usado para lhe confundir. – Christine falou sussurrando
para mim.
Entramos numa espécie de cozinha, bem
pequena, fogão a lenha, vasilhas quebradas de barro, e um balde com água.
Dentro da balde com água havia muitas fezes de ratos e morcegos. De repente
senti alguma coisa tocar em mim, uma mão gélida que fez girar rapidamente, no
entanto não havia nada. Christine também não estava mais comigo, e temi gritar para
chamá-la, já que ela mesma havia sussurrado para mim há um minuto atrás.
Atravessei a cozinha e sai numa espécie de salinha, havia um sofá, parecia
muito antigo, com espumas saltando das costuras rasgadas. Passei por ali atenta
a procura de Christine e parecia ter visto alguém sentado, quando olhei bem não
havia nada. Alguma coisa passou pelas minhas pernas e me assustou, soltei um
grito abafado e olhei, não havia nada. Eu estava apavorando sozinha ali.
Atravessei a sala e saí numa espécie de quarto e para minha sorte, Christine estava
ali. Segui junto a ela para outro cômodo, que parecia também um quarto, só que
maior.
Respirei profundo e de repente Christine
sentou-se no chão úmido e nojento. Pensei emtocá-la, mas ela começou a encolher
a pernas próximas do seu rosto e abraçou-se, começou a balançar para frente e
para trás.
- Christine – Surrei seu nome.
Seu olhar buscou minha voz e ela me
encarou de um modo tão estranho, sua feição como de uma criança indefesa.
- Christine, tudo bem? – Comecei a
desesperar.
Um relâmpago iluminou toda a casa e por
alguns segundos tive a impressão de ter visto um rapaz ao seu lado. O gato
negro entrou e passou entre minhas pernas e eu “congelei”. Christine abriu as
pernas e o gato se aproximou dela, começaram a trocar caricias.
- Sabe o que aconteceu comigo aqui
vampira? – Christine me perguntou numa voz tão inocente.
- O que está dizendo? Levanta daí? – Eu
disse impaciente.
- Ela roubou tudo que eu era. Eu a
amava! Mas tinham tantas forças agindo comigo. - Ela disse começando a derramar
lagrimas.
Concentrei minha mente e mantive o foco.
- Quem é você? - Eu perguntei agora mais
calma.
- Sou Willian – Ela disse e abaixou a
cabeça. – Não se lembra de mim?
Fechei os olhos por alguns instantes,
mas não conseguia saber onde o conheci, apesar de que seu nome não me era
estranho.
- Sinto muito! Mas não sei quem é você.
- Vampira! Afasta-se, fica longe dela e
de Haboryn, os dois vão levar você a destruição. – ela me disse com os olhos
arregalados.
- O que quer dizer? E Haboryn, o que
Allan tem haver com ele? – aproveitei a oportunidade para perguntar. Talvez
fosse isso que Christine queria que eu fizesse.
- Haboryn é mal com Allan e o está
enganando, mas eu não posso mais alcançá-lo, o demônio me proibiu. –sua voz foi
sumindo a medida que mencionava a frase, Christine deu um suspiro e voltou em
si.
- Descobriu o que queríamos Natasha? -
Ela me perguntou atenta.
- Talvez até mais do que queríamos –
Respondi com um leve sorriso.
Christine tomou a frente e fomos saindo
da casa, olhei novamente para trás e o gato havia sumido. Na porta da frente da
casa havia uma cobra, marrom. Eu assustei e dei um salto para trás. Christine
novamente agachou-se e tomou a cobra para consigo e então voltamos para a
mansão.
Na porta de sua mansão Christine se
virou para mim.
- Natasha. Acho que foi informação
demais por essa noite, agora tenho muita coisa para fazer.
- Não Christine tem questões que você
pode me responder.
- Talvez sim, mas hoje não é mais a
noite apropriada para isso. Mantenha o foco em encontrar o anjo ou o demônio,
ou talvez o próprio Allan. Uma hora você terá todas as respostas de que
precisa.
Afirmei com a cabeça, eu ainda não
estava totalmente convencida, mas senti que precisa deixar as coisas
acontecerem, tenho informações bem precisas, agora só preciso calcular como
agir. Então voltei para a mansão, tudo que aconteceu na casa pareceu tomar
muito a noite, já estava muito tarde e não demoraria a amanhecer.
Cap
11 –
Como previsto, a madrugada chuvosa e
cheia de mistérios, de perguntas sem respostas precisas, se tornou dia. Pude
ver da janela de meu quarto, por uma pequena fresta da pesada cortina, que
ainda chovia, a chuva estava fraca, mais ninguém se atrevia sair naquela
garoa. A não ser aqueles que precisavam
mesmo. O tempo mudaria. Logo toda aquela água se transformaria em neve. As
crianças sairiam com os pais pra brincar de guerra de bola de neve, fazer anjos
com os corpos de encontro ao chão gélido. Além dos famosos bonecos de neve.
Mais dessa vez eu nãoirei ficar em meu
quarto, olhando a deprimente brancura da neve, tenho tanto a fazer. Como procurar
pelo anjo, procurar responder as respostas pra todas as minhas perguntas.
Talvez Allan saiba de alguma coisa ou talvez não. Fechei novamente as pesadas cortinas, não
tinha nada que me interessasse lá fora, além do que é dia. Dei as costas pras
cortinas, e fui em direção a minha enorme cama, quase sempre sem nem uma
serventia, deitei-me. Eu precisava pensar. De certo modo eu estava cansada,
mais ainda muito determinada.
Eu tinha certeza que eu só me sentia cansada,
pelas descobertas de ontem, minha mente me prega peças com a imagem de Allan na
casa, Melissa me conta uma historia, depois tudo àquilo que aconteceu na casa.
Eu precisava refletir.
- Willian? Willian? Esse nome me é
familiar mais eu não consigo me lembrar quem é. Como?
‘Sabe
o que aconteceu comigo aqui vampira
Ela roubou tudo que eu era. Eu a amava! Mas tinham tantas forças agindo comigo.Vampira! Afasta-se, fica longe dela e de Haboryn, os dois vão levar você a destruição. Haboryn é mal com Allan e o está enganando, mas eu não posso mais alcançá-lo, o demônio me proibiu. ‘ As palavras de Willian me vieram à mente.
Ela roubou tudo que eu era. Eu a amava! Mas tinham tantas forças agindo comigo.Vampira! Afasta-se, fica longe dela e de Haboryn, os dois vão levar você a destruição. Haboryn é mal com Allan e o está enganando, mas eu não posso mais alcançá-lo, o demônio me proibiu. ‘ As palavras de Willian me vieram à mente.
- Eu não pretendia ficar perto de
Haboryn, literalmente. Eu apenas procuro
pelo anjo. – ao dizer isso percebi que eu estava fora do que realmente
importava Haboryn por algum propósito queria vir a terra o que levaria a nossa
raça a uma guerra, e ele precisa do anjo pra isso. Era isso.
Fiquei ali por algum tempo, pensando no
que Willian havia me dito, quem era ela, eu tinha que ficar longe de Haboryn,
mais e ela quem poderia ser?
Suspirei, agora tenho mais mistérios do que respostas. Não percebi o tempo passar, minha cabeça
tentava colocar todas as informações em plena ordem, o que eu não consegui. Tem
muita coisa faltando, espaços a serem preenchidos. E não seria ali em meu quarto que eu
encontraria as respostas que eu precisava.
Ainda era dia e eu não queria sair na
luz do sol, por mais que por causa da chuva e da neve que logo cairia, o céu
estava nublado. Ouvi uma batida, olhei pra porta. Outra batida.
- Entre.- eu disse. A porta se abriu e
Kimberly entrou, ela segurava um livro, sua capa estava virada de encontro ao
corpo, não pude ler seu titulo.
- Faz tempo que eu não me alimento, será
que você não quer ir comigo? - fiquei
quieta, apenas observando–a. Ela sentou se na cama. – algo a preocupa? – ela me
perguntou.
- Vamos caçar Kimberly, assim que
escurecer preciso distrair-me. - Ela apenas concordou com a cabeça.
- Não vai me dizer o que a preocupada.
- O de sempre Kimberly. O de sempre.
–suspirei, sentei na cama, com as penas cruzadas, meu corpo um tanto curvado
pra gente. A expressão de tédio de Kimberly às vezes me irritava mais por mais
que a expressão dela sempre fosse à mesma, ela era uma linda vampira. Talvez
ela tivesse a cara que tem de tanto ler esses livros.
- Você não encontrou o anjo?
- Não, mais o senti.
Ficamos ali por algum tempo conversando,
contei-lhe algumas coisas mais não tudo.
Se eu contasse ela não entenderia. Mais tarde ela saiu do meu quarto e
eu continuei ali, esperando pela noite, esperando para a caçada, isso talvez me
distraísse. Talvez.
O pensamento de que logo me alimentaria
não desviou meus pensamentos, dos enigmas que me rondavam, e talvez toda minha
raça.
Levantei-me com esse pensamento. Sai de
meu quarto, caminhando pela mansão pelos lugares usados pelos serviçais.
Caminhei e encontrei com alguns que nem ao menos ousaram me olhar. Não me
importei continuei andando, segui reto, e depois virei a direita, no extenso
corredor não havia ninguém, a não ser eu mesma, andei de vagar ali, de repente
escutei o barulho de uma porta ranger, eu parei aguardei, ninguém entrou ou
saiu de lugar algum, andei mais alguns metros, e uma pequena fresta de uma
porta se abriu pra mim, fiquei de frente pra porta e segurei a maçaneta, abri
lentamente, a sala era totalmente escura e a poeira que pude sentir,
simbolizava que ninguém entrava ali a um bom tempo.
Pisquei duas vezes, meus olhos se
adaptaram a escuridão do aposento, era um tipo de biblioteca. Ainda na porta abri
mais um pouco o suficiente pra que eu pudesse ficar entre a porta e o corredor.
Estranho uma biblioteca em um corredor sem portas a não ser essa que pelo visto
se abriu sozinha, pensei.
- Vamos Natasha, antes que comece nevar
–antes que eu pudesse por fim entrar e dar uma olhada ouvi a voz de Kimberly as
minhas costas. Virei rapidamente. Fechei
a porta.
- Você sabia dessa porta aqui?- ela não
respondeu me olhou como se eu não falasse nada.
- Já é quase noite, eu sei que você tem
que fazer outras coisas antes que a neve descida cair então vamos?– decidi que
depois eu voltaria pra ver o que tinha naqueles livros que deveriam estar
escondidos.
- É tenho outras coisas pra fazer mesmo.
Vamos.
Como ela poderia saber que eu estava
ali, claro pelo meu cheiro, mais por que ela não me respondeu sobre a
biblioteca? Talvez fosse ali que ela pegava esses livros dela. Era só o que me
faltava ela sentir ciúmes desses livros, pensei. Mesmo assim mais tarde eu
voltaria e veria o que tinha naquela biblioteca.
Saímos da mansão, não pretendíamos ir
muito longe, por isso resolvemos ir a pé.
- Vamos até a parte decadente da cidade?
– perguntei.
- Claro naquele lado da cidade ninguém
sente falta de ninguém, vamos. –terminando de dizer isso Kimberly disparou,
correu entre as sombras que as arvores e a noite escura fazia. Sorri e a
segui. Ao entrarmos no bairro que mais
se assemelhava a umpequeno povoado, diminuímos a velocidade. Entre algumas
pessoas de ‘bem’ ali viviam prostitutas, pequenos ladrões, vendedores
ambulantes, contrabandistas, de tudo um pouco.
Muitos de nós e até mesmo viajantes
vampiros que esporadicamente passavam por aqui, resolviam vir até aqui, diziam
que era pra ajudar a cidade contra os maus feitores. Toda vez que eu ouvia isso
eu ria. E como eles, Kimberly e eu resolvemos dar um limpo por aqui. O bairro
decadente e quase esquecido pelo resto da cidade estava pouco movimentado àquela
hora, era cedo, acabara de escurecer. Seguimos na rua principal, sem ao menos
disfarçar que estávamos aqui, alguns desses maltrapilhos sabem de nossa
existência, ou suspeitam. Algumas prostitutas nos olhavam com nojo, como se
fossemos rivais. Alguns homens nos olhavam com devido respeito, outros com
medo, e é claro tinha aqueles que nos olhava com desejo.
Na primeira encruzilhada, nós viramos à
esquerda, seguimos reto, em um beco escuro, e fedido, pude ouvir com total
clareza gemidos e gritos de prazer. Olhei pra Kimberly e ela sorriu, seguimos
em direção ao som silenciosamente. Uma mulher de cabelos curtos e mal cuidados
estava em cima do capo de um carro, com as pernas em volta do quadril de um
homem, mal vestido e sujo. Ela se agarrava a ele com força, enquanto ele
investia contra ela. Falava palavras definitivamente nada carinhosas.
- Você fica com o homem que eu fico com a
mulher. – assim que acabei de proferir as palavras, o casal se voltou e nos
encarou. Sorri para os dois sem mostrar minhas presas já à mostra, fui me
aproximando. O homem começou a proferir palavras obscenas, enquanto a mulher
dizia que só aceitava homens.
- Não queremos seus serviços. – Kimberly
disse num tom patético debochando da mulher.
Então em uma velocidade sobrenatural Kimberly avançou em pra cima do
homem, puxou–o pela camisa, jogando de encontro ao murro. Eu me aproximei da
mulher que agora gritava histericamente. Antes que mais alguém pudesse ouvir
seus gritos eu pulei em cima dela, tampei-lhe a boca, com uma das minhas mãos.
Ela esperneava deitada em cima do capo do carro, eu a imobilizei facilmente. Eu
vi o horror nos olhos dela quanto viu minhas presas, antes que eu pudesse
mordê-la senti o cheiro fresco de sangue, olhei pra trás Kimberly ainda não se
alimentara mais o homem tinha um corte profundo na cabeça, devido ao baque
contra o murro. Voltei minha atenção a mulher, que ainda tentava gritar puxei-lhe
seu pescoço de lado e a mordi, suguei-lhe o sangue lentamente. Seu sangue não
era dos meus preferidos definitivamente. Não era exatamente saudável. Levantei
a cabeça assim que terminei, limpei meus lábios ainda em cima do corpo já sem
vida. Levantei e deixei o corpo ali mesmo, Kimberly já se levantava, ergueu o corpo e o colocou
dentro do carro, e fez o mesmo com a prostituta. Por mim eu deixaria como eles
estavam.
- Não foi uma das minhas melhores
refeições, mais é melhor do que nada – Kimberly disse olhando pra mim, ela
limpava os lábios rosados.
- Não foi mesmo, nem chegou perto. Vai
querer mais algum? – perguntei. Ela apenas balançou a cabeça negando. – Então
vamos.
- Vamos. – dessa vez eu segui na frente,
correndo na velocidade sobre-humana pela qual fomos privilegiados. Saímos do bairro
em questão de segundos.
- Tudo bem se você voltar sozinha -
perguntei a Kimberly.
- Não tudo bem, eu sei que você tem
coisas pra fazer. – acenei com a cabeça e tomei direção diferente a dela. Eu
precisava vê-la eu precisava sentir o
anjo perto dela, precisava verificar se ele, tinha ido vê-la. Eu tinha que
senti-lo novamente. Com esse pensamente eu corri mais rápido. Não demorei muito
a chegar à janela do quarto de Mellody, ela dormia, com a expressão calma e sem
preocupação.Será que o anjo está por aqui, como esteve com Annie todos aqueles
anos sem que eu pudesse senti-lo. Abri a janela, devagar, sem fazer barulho, e
entrei no quarto, fiquei observando-a, cheguei mais perto da cama, apurei meus
sentidos, ela estava imersa a um sono profundo, ela sonhava, era um sonho
feliz, apurei um pouco mais meus sentidos e vi, a pequena menina correndo por
um lindo gramado, ao longe em baixo de uma arvore uma cesta de piquenique
alguém corria atrás dela, sorrindo. Rindo
com a irmã mais nova, era Annie. Foi então que percebi que não era apenas um
sonho e sim uma lembrança. Era só isso que a pequena Mellody tinha agora
lembranças.
- Olha o lado bom, você tem o anjo. – eu
disse baixinho, ela se moveu, fiquei imóvel escondida nas sombras. Eu não tinha
certeza que o anjo a estava protegendo, eu precisava ter total certeza disso.
- Meg – eu a ouvi murmurar ela disse o
nome pelo qual ela me chamava da vez em que estive na casa. Ela ainda dormia,
eu estava camuflada nas sombras ela não podia saber que eu estava ali. Fiquei
em pé vigiando-lhe o sono durante algum tempo, não o suficiente para vê-la
acordar no meio da noite, como acontecia com outras crianças.
Sai dali, já era tarde, uma boa hora pra
ir até o Spark’s o lugar deveria estar movimentado já que hoje é domingo que a
neve ainda não caíra. Passei a mão em minha roupa, tentando ao Maximo alisá-la,
a sombra de uma arvore perto do Spark’s.
- Ótimo- eu disse avaliando meu trabalho.
Passei a mão em meus cabelos, e fui em direção do Spark’s, olhei a fila, Allan
não estava ali, entrei na boate, dessa vez não fui até o bar, segui em direção
oposta onde ficavam vários sofás e poltronas, onde eu podia ver a pista de dança.
A boate estava cheia, vasculhei o lugar com o olhar e não vi quem eu procurava.
Olhei para o bar o ultimo barman com
quem eu falei da ultima vez não estava mais ali, talvez tivesse sido despedido,
ou morto por um de nos. O que acontecia com freqüência. Sorri. Pessoas mortas
em Gander não era uma coisa tão incomum. Vivemos ali por muitos anos, sem
sermos percebidos, e assim continuaria.
A noite passava de vagar e eu logo
desistiria de ficar esperando-o. talvez Haboryn soubesse que eu estava atrás
dele, e me queria longe dele, já que eu matei a outra humana. Talvez o demônio
pense que eu sou uma exterminadora de protegidas pelo demônio. Não seria
arriscado de mais. Desisti de ficar ali,
levantei-me e fui dar um volta geral no salão de dança.
Andei entre os humanos bêbados, alguns
me paravam dando em cima de mim, em outra ocasião eu poderia até parar e dar um
pouco de atenção seduzi-lo e levá-lo a qualquer lugar onde eu poderia, me
divertir com ele e depois matá-lo, ou só matá-lo. Ou deixá-lo vivo. Tanto faz,
isso dependeria muito. Da ocasião. Hoje eu não tava afim, tinha acabado de me
alimentar e esses humanos poucos poderiam ser capazes de me satisfazer. Poucos
são capazes, o Derick, por exemplo, já é bem profissional nisso. Eu poderia
visitá-lo mais frequentemente assim que tudo isso terminasse. Se isso terminasse
claro.
Continuei a andar, pelo salão, os
flashes usados davam efeito de eu estar andando em câmera lenta, e as pessoas
pareciam dançar em câmera lenta. Allan definitivamente não estava ali. Eu começava a achar que minha teoria estava
certa Haboryn talvez o impedisse de se aproximar de mim. Suspirei.
Sai do Spark’s desta vez pela porta da
frente. Segui para mansão. Caminhando com os braços em volta do meu corpo.
Observei o céu, disfarçadamente farejei o céu. Agora não demoraria muito para
neve em fim cair. Os dias seguintes seriam assim. Voltei a mansão.
Entrei e fui direto ao corredor, onde eu
encontrara a porta esquecida. No corredor havia uma criada. Eu estava a frente
da onde deveria estar a porta. Mais não tinha nada ali, a empregada limpava alguma
coisa no chão. Olhei pra frente e pra trás não tinha porta alguma, será que eu
havia trocado os corredores? Voltei até
a entrada daquele corredor, caminhei de novo em linha reta a empregada já se levantava e se preparava pra sair. Olhei
pros os lados do corredor. Dessa vez um metro da onde eu havia parado, vi uma
pequena saliência na parede me aproximei e lá estava a porta, dessa vez não
hesitei abri de uma vez, antes de entrar olhei os dois lados do corredor não
tinha ninguém, entrei e encostei a porta.
Meus olhos buscavam se adaptar a
escuridão ali. Quando isso aconteceu algumas tochas presas na parede se
acenderam, o que me fizeram assustar. Respirei fundo e segui, nas prateleiras,
havia livros de todos os tipos empoeirados. Livros de autores conhecidos como
William Shakespeare,
que até eu mesma já ouvira falar. Outros livros eram antigos de mais, talvez
fosse de quando Silas nasceu, renasceu não sei.
Tinha também encostado perto na parede
um enorme quadro, daqueles que são encontrados nas casas de antigamente na sala
principal, o retrato da família ou do líder da família, o que fosse. Esse
quadro era de uma linda mulher ela trajava um vestido, comprido com um lindo espartilho ela estava sentada em
uma cadeira de madeira, com pose de uma verdadeira dama. Parecia feliz. Não
tinha assinatura.
Outro quadro estava assinado como
Leonardo não pude ver o resto do nome estava apagado, dessa vez eu não estava
curiosa pra saber o nome do autor daquele quadro.
Voltei minha atenção as prateleiras de
livros, eram exatamente três prateleiras frente e verso de livros. Mais o que mais me chamou a atenção, foi que
perto de uma janela afastado de todas as outras coisas, em cima
do que parecia um pedestal de madeira, sua extensão era quadrada, em
cima era como um livro aberto. Cheguei mais perto, o livro que deveria estar
ali não estava mais, só à mancha de poeira estava lá, cobrinha principalmente
nas beiradas o que mostrava que o livro era bem grande e estava aberto em certa pagina. Pelo visto
alguém o havia retirado recentemente. E para ele estar onde esta parece que é
importante.
Observei
o pedestal vários mais uma vez, e voltei minha atenção nas outras
prateleiras, eu não encontraria nada de interessante ali eu tinha certeza, o
que talvez pudesse ser bem interessante, era o livro que estava no lugar
especial.
Sai da sala, qualquer dia eu voltaria
pra ver se o livro voltara. Talvez Kimberly o estivesse lendo, por que pelo que
tudo indica ela conhecia muito bem esse lugar.
Voltei ao meu quarto. Abri as cortinas,
e os primeiros flocos de neve começou a cair.
Cap.
12 –
Os flocos de neves caíam tão
maravilhosamente que me fez até ter lembranças humanas. Eu era filha única e
meu pai sempre me levava para brincar de neve no quintal, eu lembro que eu
corria, no começo como agora parecia uma chuva fraquinha, eu estendia as minhas
mãozinhas que naquela época eram quentes e vermelhas por causa do frio, e então
sentia os flocos gelados me dando prazer. Mas ficava divertido mesmo quando
caía em forma já de bolas de gude e as de ping-pong. Caíam nos meus cabelos
ruivos e brilhavam, era como um conto de fadas. Quando eu tinha que voltar pra
casa para não adoecer eu observava a neve da janela do meu quarto, lentamente o
verde se tornava branco, revestidas de alvura, tudo resplandecia. Ai no outro
dia eu saia e corria com meu pai, as outras crianças, fazia anjinhos na neve,
era tão lindo e feliz.
Lembrar de neve, conto de fadas e anjos,
isso que era pra ser nostalgicamente feliz me trás a realidade, lembro do
maldito anjo e de Annie. Agora a neve atrapalhará minhas buscas, crianças têm
até certohorário para estarem nas ruas e o cuidado é dobrado, até para se
alimentar se torna mais difícil. De um lindo conto de fadas, tornei minha vida
um duelo de seres perigosos, agora eu vivo da morte de outras pessoas que
sonharam como eu, e a procura de um anjo, como aqueles que eu fazia na neve e
tanto admirava.
Minha cabeça perdida em investigações
sem resultados, em vez de resoluções eu encontrava cada vez mais mistérios,
talvez eu ficasse boa nisso e me especializasse – ri de meu pensamento – ou
talvez eu pegue realmente gosto pela coisa e então eu comece a matar só depois
que resolvesse o caso da vida de alguém – Ri mais alto ainda.
Precisava de respostas, mas toda vez que
recorria à velha bruxa, sempre encontrava mais mistérios, e como da ultima vez,
cada vez mais assustador. Eu preciso ficar longe de Haboryn, e quem sabe aquela
bruxa não utiliza dos poderes do próprio.
Aquela frase soou em minha mente: ‘Haboryn é mal com Allan e o está enganando,
mas eu não posso mais alcançá-lo, o demônio me proibiu. ’
Se Haboryn e Allan estão juntos, e eu já
tive a comprovação, a pergunta é por que. Se eu bem entendo, o demônio estava
com ele para alcançar Annie, mas como Annie morreu, porque os dois estariam
unidos? É lógico, Allan sabe quem é o novo protegido, e Haboryn o está usando
para chegar ao anjo, mas pregou peças e tentou me enganar e desviar do foco,
seus malditos poderes, agente nunca sabe quando ele os usa, até quando caímos
em si, e descobrimos que fomos enganados pela serpente. Allan é o foco, mas
preciso fazer isso sem que Haboryn descubra. Mas como? Vou atrás de Allan hoje,
como é segunda, ele provavelmente está na escola. Espero que ainda não esteja
fechada por causa da neve, ainda é breve, parece como uma chuva de verão.
Desci a escadas do meu quarto, a mansão
está tão silenciosa, sem ranger, sem barulhos de conversas ou de movimentação.
Parece que não tem ninguém.
Voltei ao quarto salubre e abandonado
que bem parece uma biblioteca. O livro ainda não estava lá, ao tocar na poeira
que ele deixará meus sentidos foram ativados. Eu vi Kimberly, ela olhou para os lados e sorrateiramente pegou o livro.
Então voltei da visão, comecei a sentir medo e adrenalina, talvez fossem os
sentimentos de Kimberly naquele momento.
Sai da biblioteca e procurei por
Kimberly em seu quarto, mas para minha surpresa estava vazio, a janela estava
toda esbranquiçada da pequena camada de neve que caía adentro pela janela
aberta. A cama desarrumada. Então toquei o lençol e vi Kimberly deitada com o livro aberto sobreposto em seu abdômen.
Seus olhos fechados e uma leve brisa esvoaçavam seus cabelos rosados. Aos
poucos seu corpo foi levitando, e uma leve brisa contornava todo o seu corpo.
Voltei em mim, agora temerosa, Kimberly está estudando magia, e aquele livro é
o seu guia.
Desci com passos um tanto longos, e, a
sala outrora vazia, agora está desfrutando da presença irritante de Dãcan.
- Porque a pressa vampirinha ruiva? –
Ele perguntou num tom de deboche.
- Dãcan. – Pausei em seu nome – Você
conhece a biblioteca escondida em um dos becos da mansão?
- Porque a pergunta Natasha? – ele
perguntou intrigado. Geralmente nunca me chama de Natasha, senti que o assunto
era restrito.
- Pelo seu tom; já sei que conhece e
sabe coisas que muitos de nós desconhecemos.
Dãcan desviou o olhar e deu uns passos
pelo hall, atravessou até chegar à sala de estar, então se sentou num sofá. Eu
o segui e sentei logo à frente.
- Há um tempo – ele começou – antes
mesmo de conhecermos você, aqui era um esconderijo, morávamos em outra casa,
bem menor que essa, mas alvo de investigações, da igreja para ser mais
especifico, então tínhamos um lugar que era como uma fortaleza para nossos
segredos era aqui, antes de se transformar numa mansão. Silas sempre procurou
por poder, foi sedento por instrumentos que o tornasse mais poderoso, seu amigo
era John Willer, e com Christine, John se tornou tão poderoso que ultrapassou
os poderes de Silas que havia sido transformado antes de John. Tentando
compensar essa injúria, Silas buscou caminhos que o fortalecesse, então montou
aos poucos uma biblioteca vasta e cheia de segredos do oculto, mas infelizmente
ele nunca conseguiu usufruir o poder que esses conhecimentos proporcionam,
alias, nem ele, nem eu e nem Melissa, que fomos os primeiros, os que ajudaram
na construção de nossa mansão. Silas descobriu que existem vampiros que tem
predisposição para o caminho oculto, e outros não. Assim nem todos poderiam
seguir essa linhagem de sangue místico. E então ele abandonou a biblioteca lá
embaixo, suja e selada.
- Mas esse selo foi rompido, uma vampira
conseguiu quebrar as trancas e usufruir o poder e nela foi ativada a semente mágica.
– Eu disse desafiando-o.
Ele me encarou presunçoso e em seguida
sorriu.
- Tenho a certeza de que essa vampira
não é você. A magia não despertou em mim, quanto mais numa vampira tão patética
quanto você.
Fechei minha expressão e logo em segui
sorri ironicamente.
- Realmente Dãcan, não fui eu, mas
porque não tive oportunidade, talvez eu nem queira a ter. Kimberly superou seus
poderes patéticos e exagero de personalidade.
- Kimberly! – Ele praticamente gritou o
nome dela. – a mais nova vampira do clã, a estúpida e, inocente Kimberly. – Seu
rosto estava inexpressivo.
Num instante ele sumiu e eu sentei.
Silas deve odiar John, deve ter uma inveja, ele parece ter sido sempre melhor
que o lord. E sonha um dia John
submeter-se a sua liderança.
Levantei atordoada, nos últimos dias
ando descobrindo tanto coisa, tantos segredos, misticismos. O anjo e o demônio
trouxeram a tona segredos que eu jamais imaginei ter existido. Passei pelo hall
e fui surpreendido por Silas.
- Olá Natasha. Como estás? – Ele
perguntou com seu sotaque e forma colonial e culta.
- Estou bem mi lord. E você?
Ele me olhou alguns instantes – Não
parece estar bem. Tem certeza?
- Só estou atordoada. A procura pelo
anjo andou me estressando um pouco.
- Cuidado com o que descobre Natasha,
nem tudo pode ser real, seu olhar não é mais o mesmo comigo. Começo a achar que
esta muito próxima de Christine. Tome cuidado com ela, você pode confiar em
seus poderes, mas ela não confia em você.
- Obrigado Silas. Agora tenho que ir. –
Falei enquanto lhe dava as costas.
Finalmente sai da mansão, e caminhei
pelo bairro, os mesmo rostos imbecis de sempre, a mansão de Christine estava
toda com o jardim florido de tundra, e pela janela de vidraça pude ver o
caldeirão fervendo líquidos transparentes como água. Pensei em parar e
conversar com ela, mas estava com pressa, já estava quase sendo à hora do
intervalo na escola de Allan. Não demorei em chegar lá. Allan estava na sua
classe, sentado no fundo, sozinho, todo vestido de roupas negras, maquiagem
pesada e gótica, lápis negro, sombras vermelhas sangue, pulseiras e
gargantilha. Seus olhos enegrecidos, seu corpo, mas bem formado como um
adolescente adulto está realmente belo, diferente daquela criança que nos
procurou para ajudá-lo com Eric. Fiquei na espreita esperando o intervalo, o
sol baixo graças à pequena chuva de neve. Quando o sino tocou, todas as
crianças e adolescentes saíram, Allan foi o ultimo a se levantar, sua
inexpressão me deixou aflita. Atravessou o corredor e foi indo para trás da
escola, segui com os olhos e alcancei sorrateiramente quando virou a curva e
meu olhar se perdeu. Quando o procurei, lá estava sentado embaixo de uma
mangueira na escola. Estava só e inexpressivo. Uma ventania chacoalhava as
folhas da arvore, e sua intensidade foi aumentando, os ventos foram ganhando
força e velocidade, os cabelos de Allan esvoaçavam e suas vestes iam para lá e
para cá. Allan pareceu conversar com alguém, sua boca gesticulava palavras, mas
mesmo aguçando meus sentidos eu não pude ouvir. Decidi interromper, mesmo mediante
a todos os perigos que essa atitude me traria. Avancei alguns passos e como num
passe de mágica a ventania se desfez, Allan suspirou e engoliu seco. Seu rosto
rapidamente me achou, seus olhos estão fixos nos meus; e, totalmente negros.
Seu rosto inexpressivo se tornou uma face obsessiva e curiosa.
- Allan? – Perguntei em duvida se
realmente era ele.
- Sabe que não é. O que quer Natasha? –
Sua voz saiu com cordas duplas.
Olhei seria para ele. Agora Haboryn vai
esclarecer minhas duvidas, sei que num corpo mortal ele nada pode fazer contra
mim.
- Me diz o que você realmente quer de
mim? – Perguntei intrigada.
- Eu a criei – Sua voz calma e dupla.
Olhei sem entender – Você é uma vampira, instrumento do mal. Desde o primeiro
transformado, lá eu estava, e dele partiu toda a criação de destruidores até
chegar a você.
- Poupe-me demônio. – o repreendi
desacreditada.
- Natasha. Você é uma vampira de muitas
qualidades, seria ótima se estivesse comigo.
- O que quer dizer? – Perguntei
intrigada.
- Juntos podemos realizar todos os
nossos desejos. Diz-me, o que você quer? – Ele perguntou persuasivo.
- Eu quero o anjo. Pode me dá-lo? – O
desafiei.
- Certamente que sim. Agora entendo
porque sempre atravessa meu caminho. Estamos à procura do mesmo ser.
- E o que Allan tem a ver com tudo isso?
- Allan é só mais um instrumento, um
mago negro, um agente, o meu representante na terra. Por enquanto o meu portal,
até que eu encontre com o anjo. Mas me responda. O que você quer com o anjo?
- Quero matar o seu protegido! – Falei
quase gritando de euforia.
- Não! – Os cabelos de Allan se
levantaram levemente, e uma repentina e rápida ventania surgiu e desapareceu. –
Não há precisão.
- Eu tenho meus motivos. – Eu disse
ainda que acuada.
- Eu sei o que você teme. Mas não se
preocupe, eu destruirei o anjo, assim ele não terá mais quem proteger. Sendo
assim, nada do que você teme poderá acontecer. Concorda? – Sua voz agora mais
nivelada e dupla.
Ele realmente tinha certa razão, e agora
sabendo que me posso beneficiar se atuar junto a ele. Já procurei tanto o anjo
e não o encontro, e, ele parece esta tão perto de encontrar. Quem sabe não é
uma boa juntar-me a esse inimigo.
- Você tem razão – Falei sem transmitir
segurança.
- Agora vá Natasha. Saberá noticias
quando eu achar que é à hora. Posso te dar mais força, poder, tudo o que
quiser, comigo você poderá ter. Será a mais bela, a rainha se assim desejar.
Então parti, parecia que meus mistérios
começavam a se solucionar, eu talvez tenha subestimado o inimigo, mas quem sabe
não é a coisa certa.
No final das contas que resultado se
obtém, posso me considerar filha de Haboryn? Uma vez que ele é o mal encarnado,
e sua essência é a mesma essência daquele que fez nosso mestre assassinar seu
irmão, a mesma essência daquele que se deitou com Lilith e daquele que
despertou o poder do amado mestre Caim. E se é, eu posso ser quem quiser ao
lado de Haboryn, posso fazer minha mente imaginar e num estalar de dedos ele
pode fazer, nem Christine poderá me deter, a sua deusa pagã é só mais uma peça
de xadrez onde Haboryn é o jogador.
Mas o que ele quer de mim? Se minha alma
já é sua, o que ganha estando comigo?
Fui lentamente para minha mansão, meus
pensamentos voando nessas questões, na proposta de Haboryn. Eu sei que me
beneficiaria muito, mas em troca de que. De fazer o que já faço, ou seja,
matar. Ou o que mais ele quer de mim?
Cheguei ao casebre, do mesmo estado,
agora mais esbranquiçado por conta da neve. A figueira estava imensa e branca,
ao seu redor em terra, continuava limpo e sem vestígios de mudança de tempo.
Adentrei a casa e sentei embaixo da figueira. Essa casa começa a me soar como
um lugar familiar, eu talvez tenha perdido da memória, mas acho que já estive
aqui antes. Sorrateiramente o gato negro surgiu, ele vinha cauteloso, então
estendi minhas mãos frias e o acolhi.
- Quanto mistério você significa pra mim
– Comecei a refletir e ele miava. – Annie começou aqui, a perecer nas garras de
Haboryn, foi aqui que ela se deparou com todo o sobrenatural. Conheceu John e
Christine, você, e o estranho Allan. Agora eu estou a procura de um anjo e seu
protegido para dar o mesmo fim que dei a Annie. Se tudo partiu daqui, pode ser
que com o novo protegido também comece. Mas Allan é o único que sempre vem
aqui, alem de mim e Christine. – Soltei o gato e levantei.
Entrei na casa a procura de qualquer
coisa que me levasse a um suspeito. Mas ela parecia intacta desde a ultima vez
em que vim aqui. Os sofás ainda mais danificados pela ação do tempo. Havia
flocos de neve por todos os lados, buracos no teto, e as paredes e o chão
estavam tão úmidos. Dejetos de ratos e morcegos forram todo o local. Atravessei
a sala e cheguei ao quarto que outrora havia sido palco daquela possessão. Tive
alguns flashes, mas controlei meus sentidos. Voltei uns passos e segui até a cozinha,
ela estava diferente de antes, mas arrumada. A balde com água que outrora
estava sobre a pia quebrada, não estava mais lá. Passei pela porta da cozinha
que leva ao quintal. O chão forrado de neve, somente em volta da figueira
estava intacto. E embaixo dela, a balde estava lá, me aproximei cautelosa, e
nada aconteceu. Olhei na balde que estava cheia de água, toquei sorrateiramente
com minha mão e nada aconteceu, parecia estar normal, parecia ser só uma balde
com água. Então relaxei e sentei no chão, acomodando minhas costas na arvore.
Os cipós da figueira estavam tão próximos de mim que eu quase me sentia
sufocar. Os sons que o vento e a neve produziam ao passar pelas folhas da
arvore estavam bem mais audíveis daqui debaixo.
Um barulho aguçou meu sentido para a
direção. Allan vinha todo trajado de preto. Atravessando o portão e olhando
fixamente para mim veio rumo a minha posição.
Cap.
13 –
Levantei e me apoiei na arvore. Seu
rosto sempre inexpressivo me deixou acuada, não sei qual será sua reação, e se
é ele mesmo ou o demônio.
- Olá Natasha. – Sua voz saiu tão
serena, quase pude ver um sorriso brotar de seu rosto.
- Allan? – Perguntei confusa.
Ele sorriu. Eu nunca o havia visto
sorrir antes; e seus olhos, os seus olhos estavam azuis.
- São lentes? Porque são, estão muito
boas, até parece serem seus de verdade.
Mas uma vez ele sorriu e logo se sentou.
– Estas são as cores originais de meus olhos Natasha. Eu costumo usar lentes
negras, peguei um apego por tudo que é escuro e místico. – E você; são vermelhos
mesmo ou você os tinge?
- São assim mesmo – sorri – já foiruivo
bem claro antigamente, então dependendo de cada situação, ele se torna mais ou
menos intenso o vermelho.
Ele me analisou por alguns instantes –
posso tocar? – ele perguntou, e com a cabeça eu confirmei. Então suas mãos
tocaram meus cabelos. – Eles são bem macios, eu nunca imaginei que vampiros
pudessem parecer tão humanos.
- Alguns perdem sua essência, e deixam
que a besta tomem conta por completo. Outros tentam ao máximo acalmar a frenesi
e se tornar mais humano possível.
- Como John – ele complementou.
- Sim. Como John. – fizemos uma pausa –
você o conhece?
- Sim, quando ele veio salvar Annie
naquela noite onde tudo começou. – um vento mais intenso passou por entre a
arvore e me fez desabrochar meus sentidos. Ele pode está bem agora, mas quem
garante que de uma hora para outra ele não se torne Haboryn.
- Não precisa ficar com medo Natasha –
ele me olhou sorrindo – É apenas eu, Haboryn não está aqui.
- O que quer dizer?
- Que Haboryn, como você sabe é um demônio,
mas existem momentos em que ele pode me tornar um hospedeiro, se assim eu posso
me auto-chamar.
- Acho que entendo. – disse confusa.
- Eu travo uma luta constante entre o
bem e o mal em meu coração, em minha vida, as vezes sinto que não vou agüentar.
O olhei sem entender. Talvez no fundo eu
sabia exatamente o que se passava na vida dele, eu não consigo me lembrar muito
bem, mas acho que já tive essa guerra interna dentro de mim, escolher a paz ou
perigo, e acho que por isso me transformei. Isso também me lembra a mim mesma,
só em outra situação, escapar do bem e do mal para livrar minha espécie, tantos
fardos.
- Porque você escolheu viver dessa
maneira, servindo o mal?
Seu sorriso se apagou.
- Tudo o que eu mais queria era a
aceitação dos meus pais. Nada do que eu fazia em casa era certo; minha mãe só
sabia me julgar e me acusar. E meu pai por outro lado, só virava as costas pra
mim, seu orgulho era meu irmão mais velho, ele estava ao lado do meu pai para
onde é quer que meu pai fosse. Festas, jogar sinuca, ver os jogos, tudo, o meu
pai sempre o chamava. A minha dizia que isso um dia aconteceria comigo, quando
ficasse mais velho e tivesse idade, mas eu sempre me senti mais responsável que
meu irmão, que eu poderia estar no lugar dele, ser como ele e até melhor. Mas
eles não enxergavam isso. Nunca tive amigos na escola, me chamavam de estranho,
quando criança eu tinha um amigo imaginário, os outros meninos riam de mim, mas
eu nem importava, pois sempre que eu queria brincar o meu amigo surgia. Mas eu
cresci, e ele desapareceu, aos poucos fui entendendo, o meu amigo imaginário
era o meu guardião, o meu mestre espiritual. Comecei a buscá-lo, internet,
google, onde eu encontrava sobre guia espiritual eu baixava e lia. E essa minha
fascinação pelo oculto foi crescendo.
- Então tudo começou por causa da
inveja? – Eu perguntei interrompendo-o, e lhe dando tempo de respirar.
- Sim. Às vezes a inveja nos instiga a
crescer, o problema é não consegui parar.
- Continue – estava demasiadamente
interessante, eu quis ouvi-lo.
- Muito bem – Ele respirou mais uma vez
– Realizei inúmeros rituais, mas parecia que eu não conseguia fazer nenhum
deles. Comecei a ver vultos, a sentir presenças. Contei a minha mãe e ela me
repreendeu, quis me levar para igreja, eu concordei. As coisas lá em casa
estavam melhorando, com esse novo “dom”, a minha família começou a prestar mais
atenção em mim. O meu irmão começou a ficar com medo, ele era dois anos mais
velho que eu, e a minha inveja começou a me mobilizar, para lhe dar sustos. No
final ele sempre me batia, mas eu sorria quando o deixava apavorado. Meus pais
notaram alguns comportamentos que eles achavam inaceitáveis. E numa discussão
entre os dois eu ouvi a frase que carrego até hoje, por onde quer que eu vá. ‘O
seu filho é um estranho, você devia ter cuidado melhor dessa aberração. ’ O meu
pai havia dito em alto e bom som, parecia que queria que eu ouvisse a frase. A
discussão havia sido aberta, e ninguém queria ter sido o culpado por ter criado
uma aberração – Lagrimas desceram da face de Allan, sua voz estava tremula, e
ele teve que fazer uma pausa.
Eu o olhava fixamente, eu nunca imaginei
que ele garoto inexpressivo carregasse tanta dor e magoa. Para mim Allan não
passava de um riquinho procurando alguma coisa pra fazer.
- Você deve estar tendo pena de mim não
é? – ele me perguntou controlando seu choro.
Tentei ser fria – Cometo crimes a todo o
momento Allan, não se iluda achando que tenho pena de alguém.
- Ótimo! Por que eu não suportaria que
tivessem pena de mim – Alguma coisa nele já me lembrava Haboryn, pois a figura
doce do menino de agora pouco estava sumindo. – No outro dia, meus fingiam que
nada havia acontecido, e aquilo fervia em meu sangue. Eu já havia feito muitos
feitiços para fazer com que meu irmão não fosse tão amado pelos meus pais, mas
ele parecia ter um anjo por perto. – Na hora meus sentindo refletiram, agora
tudo começa a fazer sentido. Allan e Annie, Haboryn, é lógico, ele está atrás
do anjo que está com o irmão de Allan. – Na mesma noite desse outro dia, eu
peguei uma faca na cozinha, eu estava determinado a matá-lo. Fui até seu
quarto, estava com a porta aberta e o computador ligado. Coloquei a faca nas
costas e entrei. Meu irmão estava dormindo, tirei o computador da tomada, para
que nenhuma luz atrapalha-se meus planos. Ergui a faca ao máximo que eu pude e
então cravei em seu peito. O sangue rapidamente tomou conta das minhas mãos. Eu
senti no chão ao lado da cama aos prantos. O meu irmão ficou buscando vida,
tentando respirar, ele estava agonizando e eu também. Com o barulho meus vieram
de encontro, estavam horrorizados. Talvez nunca imaginassem essa coragem que eu
possuía. Chamaram a ambulância que tentou salva-lo, mas no caminho meu irmão
não estava mais vivo. Meu pai e minha mãe tinham ido com ele para o hospital,
eu aproveitei a situação e tentei fugir, arrumei umas roupas na minha mochila e
parti. Mas a policia me abordou, horas depois. – Ele parou um pouco e me olhou,
eu estava em estado de choque, primeiro por toda essa coragem, e depois porque
meu “teto” havia desabado, achei estar com uma pista, e não estava. – Em casa
meu pai quase me matou de tanto me bater. A minha mãe só sabia chorar, ela não
dirigiu uma só palavra para mim. Foram sete dias de tormento, meu pai estava
frio e minha mãe fingia que eu não existia. Após a missa de sétimo dia, que a
situação foi melhorando. Começaram a me levar em psicólogos, psiquiatras. Mas
eu já não estava com problemas, o meu único obstáculo era meu irmão, e mesmo
depois de morto ele fez com as fracas ligações entre meus pais fosse totalmente
desfeitas. Eu sabia que não era mais aceito por eles. A noticia não vazou, ninguém
mais ficou sabendo, alguns colegas começaram a ter dó de mim, até me procuravam
para que eu desabafasse, mas eu não podia, se não confessaria que o culpado era
eu. E ai, do dó viria o desprezo e a raiva. Esquivei todos eles por dois anos,
até que fugindo do psicólogo na escola eu encontrei esse casebre, que muito me
chamou a atenção.
O tempo estava passando bem rápido,
estava a tarde e apesar de eu estar embaixo da figueira, o sol ainda conseguia
arder minha pele. Soltei um grunhido e Allan percebeu. – Quer entrar Natasha? –
fiz um gesto afirmativo. Entramos e nos sentamos nos sofás fedidos e
estragados.
- Estou aqui falando e falando, mas me
veio uma pergunta. Antes de continuar, gostaria que me respondesse.
- Pode perguntar – O fitei intrigada.
- Porque o sol não há destrói?
- É por isso que meus cabelos são
vermelhos, de alguma forma quando fui transformada, eu ganhei essa resistência,
o sol chega a me incomodar, mas não me fere muito.
- Hum! Todos da ordem são assim?
- Não! Só eu e Kimberly. Agora chega de
perguntas e continue.
- Tudo bem. –Quando entrei aqui e me
sentei na área da frente. O meu estado de humor mudou. Parecia que alguém me
dava energias. E de repente um gato negro surgiu, e eu o chamei. Pulou nos meus
braços e eu o confortei. Fiquei refletindo, eu o invejava, vivendo entre os
seres da noite, tudo o que eu mais queria. Visitei o seu bairro, e vi Christine
mexendo o seu caldeirão, notei que eram verdade os boatos que diziam que lá era
mágico. Também fui assustado por Kimberly. E fugindo de medo o gato me deu um
chamado e eu voltei pra cá. O gato pulou em meus braços novamente – Allan então
sorriu – e seu ronco batia em sincronismo com meu coração. Uma voz distante me
fez deduzir seu nome. Willian! Foi então que tudo começou.
- O que aconteceu a partir daí? – eu
perguntei muito curiosa.
- A policia me localizou e eu tive que
voltar pra casa. Mas desde então comecei a visitar sempre a velha casa. O
Willian se comunicava comigo através do gato, às vezes me mostravam imagens. –
Quando ele falou das imagens, me fez arrepiar.Lembrei de quando eu e Christine
viemos aqui. – Willian queria voltar à vida normal, então se sabe que Will é o
gato negro. Em troca, Will me tornaria um verdadeiro bruxo, um mago das trevas.
Como aquele dos desenhos e da minha imaginação. Então aceitei ajudá-lo. Ele me
ensinou a arte das trevas e os dons das trevas. Então ele me pediu que fosse atrás
de Eric.
- Porque o Eric? – ainda muito intrigada
com toda a história.
- Eric estudava arqueologia, e descobriu
no estagio um artefato mágico, que lhe concede a carnalidade. Ele pode sair de
seu corpo e estar em outro ou voltar ao seu quando quiser. Mas ele nunca imaginou
para que servisse, fez suas buscas, mas não surtiam resultados, então fez como
um amuleto. Will havia pedido ajuda ao inferno, e o demônio havia lhe mostrado
o artefato, mas lhe ensinado a ativar. Para isso Will teria que lhe ajudar,
atrair Annie até a casa para que ele sugasse a energia do anjo e viesse para
terra no corpo dela.
- No corpo dela! Então é por isso que
ele tanto me odeia, eu desperdicei essa oportunidade dele. – Mas agora quer me
ajudar, por quê? Pensei.
- E Will precisava de mim para isso.
Numa festa brincamos com o copo, e criamos uma ponte com o demônio. E ele
seguiu Annie, e a conduziu até aqui. Mas infelizmente John e Christine a
salvaram. E eu tive que pensar em outro plano. Eu já estava me apavorando com
tudo, o demônio chegava a me assustar inúmeras vezes, e Will já não era o
mesmo. Tentei abandonar tudo, mas já estava muito tarde. Então Will me fez
algumas revelações. Como de quem de fato o fez estar onde está.
Meus olhos brilharam, terei algumas
revelações, sem mistérios dessa vez. O sol estava baixo, e a escuridão já
tomava conta da sala.
- Ele me levou para um dos quartos do
casebre. Lá ele passou entre minhas pernas e quando pisquei os olhos, eu já
estava vendo uma realidade antiga. Will estava todo ensangüentado, batendo fortemente
nessa casa, mas ela não era assim como está, estava conservada e bonita, com um
belo quintal. A figueira ali atrás era uma mangueira cheia de frutos. Uma velha
abriu a porta. ‘- Entre criança. Entre. ’ Ela havia dito para Will. ‘- O que
teme meu caro rapaz?’ ela perguntou. ‘ - Umdemônio senhora, ele esta tentando
me matar’. E naquele fim de tarde a velha curou seus ferimentos, ele estava
ofegante. Ele queria falar mais do seu passado, mas ela o interrompia. Então o
sentou numa cadeira. Will estava demasiadamente fraco para realizar qualquer
ação. Ela lhe trouxe um chá afirmando que aquilo o melhoraria muito depressa. –
‘Eu enganei o amor da minha vida. Não me deixe morrer, preciso salva-la. ’ Ela
afirmou com a cabeça e ele tomou o chá. A velha recitou alguns versos mágicos e
trouxe uma faca. Will se assustou e temia o que viria acontecer, mas sentiu
completamente sem forças, só seus olhos estavam lúcidos naquele momento. Ela
cortou seus pulsos e tomou seu sangue. Aos poucos ela foi se tornando cada vez
mais jovem, e ele foi morrendo, a medida que cada gota caia no chão ele morria
e ela se tornava mais jovem. Quando o processo em fim estava completo ela
disse: - “Você que agora vive em mim e que sua juventude e vida jamais terão
novamente.” – Mas sua voz conseguiu quebrar parte do encanto, e ele pedia clemência,
ela então viu um gato negro que por ali passava, então o aprisionou. ‘E que
através dele, assim como eu, você viva para sempre. ’ Foram suas ultimas
palavras antes de sair e o deixar.
- Uma velha se tornou jovem?
- É. Parece confuso e um pouco fantástico,
mas foi assim que aconteceu, há muito tempo atrás. Então eu senti que Will
precisava de ajuda, que assim como a minha vida, a dele também era muito trágica.
Mas tudo seguiu um caminho diferente. Atraímos Annie, mas ela mais uma vez foi
salva, e em seguida você a matou. Depois consegui trazer Eric, mas Haboryn se
recusa ensinar Will, ao menos que eu lhe de um anjo.
- Terá que desistir disso tudo Allan.
Porque se eu descobri-lo primeiro que você, matarei o protegido.
Allan me olhou friamente. Já havia
anoitecido, e, quando percebi que sim, tratei de me levantar.
- A noite está chegando, e temo que
daqui a pouco não possa mais ser você. Diga a Haboryn que ainda não tenho a
resposta. Mas que estou pensando intensamente.
Então dei as costas a Allan e parti.
Deixou ali na sala suja e misteriosa. Voltei para a mansão. Pensei em para lá
em Christine, mas realmente não sei se possa mais confiar nela, foi como
Haboryn me disse, eu confio nela, mas ela não confia em mim. Agora que está a
noite, a neve está mais intensa. Tudo está embranquecendo, e essa visão me trás
nostalgia de uma infância que eu nem tenho mais lembrança.
A mansão estava vazia, atravessei o hall
e fui ao escritório de Silas. Dei dois toques e voz singela e pacificadora
surgiu – Entre.
Dentro da sala estava Dãcan e Melissa,
seus rostos não estavam muito felizes. – Vocês estão dispensados, quero
conversar a sós com Natasha. – Eles passaram entre mim me ignorando e então eu
sentei.
- Algum problema mi lord? – Comecei a ficar ansiosa.
- Não, mas creio que você tem um bom
motivo para vim conversar comigo. Não é?
- Lord,
estive hoje com Allan no casebre.
- Sim. Eu havia previsto isso – ele me
interrompeu.
- Ele me contou muita coisa, os planos
de Haboryn e de Will. Assim como nós estão à procura do protegido do anjo.
- Você tem alguma pista de quem possa
ser? – Ele me olhou fixamente.
- Ainda não, sei que está próximo, e na
escola onde Annie estudava, porque hoje de manhã ele surgiu através de Allan. E
estão muito seguros que já tenham encontrado. Eu tenho quase certeza que Allan
sabe quem é, só preciso segui-lo.
- Muito bem. Mas esqueceu um detalhe,
Allan está sob o poder de Haboryn. Você terá que vigiá-lo, mas tomando muito
cuidado para que Haboryn não perceba.
- Silas. Haboryn me fez uma proposta. –
Silas me olhou intrigado. – Ele me disse que pode destruir o anjo, assim não
terá ninguém para ele proteger, assim não terá nenhuma ameaça.
- Mas que tola Natasha. Deixe de ser ingênua,
se ele destruir o anjo ele vem para esse mundo. E então o mal será pior, você
acha que o Poderoso se contentará assim, mandará novos anjos, e saberá de
nossas intromissões. Então tudo estará perdido.
Ele realmente estava com a razão. Pedi
licença e segui para o meu quarto.
Cap.
14 –
Dois dias se passaram, resolvi me isolar
em meu quarto. Eu sei que parece um pouco entediante passar dois dias apenas
refletindo. Ainda mais para mim que não preciso dormir. Mas pelo menos esses
últimos dois dias foram meus dias de paz. Não fui atrás do anjo, mesmo sabendo
que tenho que encontrá-lo. Nem tive noticias do demônio, mesmo sabendo que
tenho que lhe dar uma resposta. Allan me tocou muito com toda sua história,
desde que me tornei vampira, eu não tive outra vida a não ser caçar, matar, me
divertir com as presas. Sempre egoísta demais, mesquinha demais. Nesses últimos
dois dias me fez ver quem eu realmente sou. E eu que aconteceu com minha vida,
eu costumava ser tão serena, eu era a ruiva que cuidava de seu marido santo.
Comecei a sorrir, eu costumava me questionar o tempo todo com as questões da
vida, eu sempre achei que não merecia o homem que eu tinha. O trai e ganhei o
dom da vida eterna. A neve ainda caia do céu, estava tudo tão branquinho, as
pessoas estavam se vestindo bem, agora devia ser umas quinze horas, olhando
aqui da janela, vejo pessoas saindo de suas mansões, de suas casas nos bairros
vizinhos. Uma vida tão normal e patética, uma vida que já foi minha e que eu
repudiei em troca de um grande amor assassinado. Silas! Grande Silas foi quem
me salvou e me deu o dom. Não sei se devo saudá-lo ou amaldiçoá-lo, se eu
estive com minha vida medíocre, eu estaria bem, tudo estaria em paz, cuidaria
de problemas que hoje são meros caprichos comparados aos que tenho que passar.
Provavelmente teria um filho, não, uma filha, chamaria Meg, eu gostaria que ela
fosse como Mellody, tão doce e esperta.
Allan. Volta e meia ele ronda meus
pensamentos, será que está pensando em mim como penso nele. Pobre rapaz, usado
pelos desígnios do mal, aprendeu a arte negra e agora está preso com o demônio.
Aquela vez o ser me disse que Allan está só sendo usado, se eu puder fazê-lo
enxergar o mal que está fazendo e se juntar a mim, então todo meu trabalho
estaria resolvido. Ele me contaria onde está o anjo e eu mataria o seu
protegido.
Bateram na porta, observei atentamente
logo após dizer entra. Kimberly adentrou meu quarto e veio até mim.
- Ainda está presa a este quarto
Natasha? Conta-me o que está acontecendo.
Sorri. – Não há nada. Só estou armando
planos para encontrar o maldito anjo.
- Não quer ajuda. Ou já chegou a alguma
conclusão? – Sua voz saiu tão doce.
- Cheguei sim. Lembra de Allan?
- Sim. O Gótico.
- Esse mesmo. Há alguns dias atrás eu
estive com ele. Na primeira vez ele estava possuído, Haboryn habitava sua
matéria e me fez algumas propostas. Mas já descartei essas idéias, Silas me fez
abrir os olhos. Na outra vez, Allan estava tão sereno, nem parecia o mesmo
gótico que conhecemos naquela noite. E ele me contou tudo que aconteceu.
- E? – Ela perguntou curiosa.
- Ele é só mais uma peça, tá sendo usado
para fazer o mal. E receio que eles estão mais próximos na minha investigação
do que a mim mesma.
- E porque não os segue? – Perguntou
sugestiva.
- Talvez porque Allan carrega consigo um
demônio, e certamente saberia que eu estava o seguindo.
- Não se você pudesse bloquear essa ação
demoníaca. – Seu rosto pareceu tão malicioso.
- O que quer dizer? – Perguntei
intrigada.
- Não precisa fingir. Dãcan me procurou
esses dias. Eu sei que você sabe que estou estudando magia.
- Alias muito bem lembrado. Que história
é essa?
- Não é hora para isso Natasha. Não
perca o foco. Eu sei como fazer que o demônio nem sequer descubra que você está
bem próximo as costas dele.
- Uma fórmula. Ou algo do tipo?
- Quase isso – ela sorriu – Um talismã.
Kimberly retirou de seu pescoço uma
corrente de ouro e um pingente de dente.
- Use-o. Isso bloqueará essa percepção
de Haboryn.
Kimberly levantou-se e partiu. Deixou-me
ali sem mais explicações. Agora teoricamente tenho um aval para perseguir
Allan. O nome desse garoto está se tornando tão nostálgico. Agora não restava
outra saída a não ser buscar respostas com Christine.
Tomei um banho rápido. Passando o
sabonete, fiquei com meus pensamentos em Allan. Cheguei até ter alguns pensamentos
pervertidos, me repreendi, preferia pensar em Derick dessa maneira. Ao sair do
banheiro e adentrar o quarto, uma rajada de vento fez com que a janela abrisse
e neve adentrasse. Corri e a tranquei. Senti por alguns instantes a presença de
Christine, mas ignorei ao fechá-la.
- Esse é o amuleto feito por Kimberly? –
A voz sabia de Christine se materializou logo atrás de mim.
Ao me virar, e rapidamente me cobrir com
a toalha, eu vi que Christine sentará na cama e analisava o meu talismã em suas
próprias mãos. Na hora passei a mão em meu pescoço e não o senti. Um sentimento
horrível tomou conta do meu ser, me fez ter medo. Olhei-a apavorada.
- Contenha-se Natasha. Sou eu. Seria
pior se fosse você sabe quem. – Sua voz sabia cortou minha fala.
Sentei na cama ainda recuperando.
- Anda muito assustada. Tem alguma coisa
que queria falar?
Respirei profundamente e a encarei.
- Eu estava pensando em você agorinha
mesmo! – Minha voz saiu um tanto alterada.
- Eu sei. Por isso estou aqui. Faz algum
tempo que não há ouvia pensar em mim. Desistiu de meus conselhos, logo depois
de tantos anos vampira.
- Não é isso Christine. Eu só estava em
meu quarto refletindo. – Tentei equilibrar minha voz, para sair serena.
- Há quem você quer enganar? Será que
não sabe que sei o que se passa nessa sua cabecinha desde que era uma criança.
- São os seus mistérios Christine.
Sempre que procuro você, só volto com mais mistérios, e nada de soluções. –
Agora eu estava perdendo o controle.
- Criança. Meus mistérios lhe ajudaram a
pensar em solucionar vários outros mistérios que o cercam. Consegue ver? – Sua
voz serena.
Realmente havia muitas coisas que
estavam solucionando, mas atribuía isso a vinda do Anjo e do Demônio em minha
vida.
- Eu não tenho certeza se vieram mesmo
de você essas soluções.
- Nunca foi de duvidar de mim, esteve de
encontro com o demônio minha filha?
- Talvez eu tenha tido, mas não é por
isso Christine. Quantos segredos você ainda carrega se recusa a me dizer?
- Sim criança. A muitos segredos, que eu
só poderei revelar quando chegar o momento certo.
Sentei cansada dessa batalha. Ofeguei e
a encarei. Christine estava com o mesmo olhar e a mesma expressão, como
conseguia ter tanta paciência e mansidão.
- Eu estava me aprontando para ir atrás
de você.
- Sim minha filha. Continue.
- Estive com Allan, com Haboryn e agora
a pouco com Kimberly. São tantas questões, tantas informações, que eu precisava
desabafar com alguém. Com você.
- Há uns dias atrás fui até a escola
onde Allan estuda. Ele estava com uma aparência pesada, e depois de uma grande
ventania. Haboryn tomou seu corpo e me fez uma proposta. Ele quer que eu não
mate o protegido do anjo, quer que eu me junte a ele e ganhe mais poder.
- E o que ele ganha com isso? –
Christine perguntou séria.
- Eu também não sei.
- Então não seja ingênua menina. Algo de
você ele terá mais tarde. Mas em uma coisa eu concordo com esse demônio. Você
não tem que matá-lo.
- É preciso. Senão haverá guerras e
destruição. Por causa de uma criança com promessas. Por favor, Christine, até
você que é tão sabia tem que reconhecer os planos de Silas.
- Natasha. – Ela estava mais séria. –
Silas é um inimigo da ordem. Se ele teme uma guerra é porque suas visões já lhe
mostraram a morte. Assim como mostraram para mim a morte dele. Esse protegido
está nos planos do Supremo, sendo assim, só tem coisas boas para trazer a nós.
- E se a coisa boa a trazer não é a
nossa morte?
- Se for. Temos que aceitar o fardo. Se
essa é a vontade Dele. Temos que acatar. E outra. Se Haboryn o quer vivo, o que
pode significar?
- Sim. Um demônio não estaria do lado do
bem. – Agora fiquei mais confusa. Christine realmente me deixa mais mistérios,
mas em compensação me faz ver ângulos que eu não enxergava.
- Não concorda.
- Sim. Mesmo que eu tenha que deixá-lo
vivo, eu preciso saber quem é. Alias a mais coisas que queria descobrir com
você.
- Estou aqui para isso.
Respirei fundo e comecei.
- Allan me contou outro dia que Will
queria proteger o amor da sua vida. Pareciam estar sendo perseguidos pelo
demônio. E numa casa, na verdade a casa da esquina ele encontrou uma velha que
o curou e depois sugou sua juventude e o prendeu no gato.
Christinederramou lagrimas no lençol. Eu
a fitei. Agora estava fazendo sentido. A velha que sugou a vida. Ou seja, uma
velha bruxa.
- Foi você? – Perguntei ainda tentando
entender. Senti um grande choque. Christine quem sempre esteve comigo, conhecia
tanta coisa que estava a minha volta. E jamais nem sequer ousou me falar.
Naquela época você ainda era jovem
Natasha. Estava casada. Fui pouco antes de você despertar para eternidade.
Haboryn já rondava por Gander a procura do homem santo que era protegido por um
anjo. Will era um forasteiro em nossas terras. Veio sendo usado por Haboryn
para seduzir a dama e então fazer o santo pecar. Contudo quando ele havia conseguido.
Só lhe restava à morte, o demônio não precisava mais dele em Terra. Will havia
apaixonado pela dama e fugindo com ela das garras do mal, encontrou outra tribo
maléfica. Sua dama havia se ferido e ele teve que correr para depois vim
salva-la. Minha casa estava bem próxima, e todos sempre me conheceram por ser
curandeira. Ele então me procurou para lhe curar e curar a sua esposa. Eu
estava velha demais, precisava recuperar minha juventude. As fadas haviam me
ensinado um feitiço do glamour, que sempre me deixaria jovem. Mas em
compensação um ser humano seria sacrificado. Isso me igualava a John, e me
fazia sentir tudo que ele sentia quando tinha que matar para sobreviver. Mas eu
pecava mais, eu matava por estética, e por tabela também sobrevivência.
- Você foi egoísta! – Gritei a frase. Eu
estava enraivecida, parecia que muitas de minhas qualidades humanas estavam
aflorando.
- Não se esqueça do que você é. Vampira!
– a ultima palavra entrou rasgando meus ouvidos. Tive que me conter, eu fui
recuperando a minha identidade, afinal, mato por diversão, o que me faz
diferente dela. Lembrei de Melissa, agora vejo que se parecem.
- Eu sei que fui muito egoísta. Mas eu
amo a vida imortal. E Willian era só um forasteiro, talvez um desgraçado, já
que fui usado pelo demônio. Então lentamente fui roubando sua vida e sua
juventude. Mas perto do fim, ele me disse que queria salvar sua amada, então eu
vi que seu coração podia amar. Então lhe dei a chance de viver como um gato, só
que não sabia que sua alma ficaria presa na minha antiga casa. Ele então não
pode sair dali, e jamais soubera o que aconteceu com sua amada.
- Isso foi cruel – comecei a rir.
- Não teve graça Natasha. Eu condenei um
jovem a uma prisão eterna.
- Então naquele dia, que invadimos a
casa, o ser falava de você. Era Will. Ele dizia que a amava e que você era má.
- Sim. – lagrimas escorreram ainda mais.
– ele estava certo, Natasha, eu fui má e egoísta.
- E porque você só não desfaz o feitiço?
- Se fosse assim tão fácil. Vai alem de
minha sabedoria. E as fadas não querem me ajudar, elas dizem que eu mudei o
poder dessa magia. Agora ninguém sabe que fluxo irá tomar.
- Então Haboryn surgiu na vida dele? –
Perguntei já entendendo como tudo começou.
- Sim. Haboryn surgiu e lhe prometeu
sair dali. Mas ele queria primeiro encontrar um anjo. Will então conheceu Allan
e então acredito que você já conheça toda a história.
- Sim. Will usou Allan para achar Annie
e entregar a Haboryn para que Haboryn sugasse a energia do anjo e viesse a esse
mundo e trouxesse consigo Allan.
- Exatamente. Mas o que você ainda não
sabe é com quem está o anjo.
Intriguei e a fitei colocando minha
cabeça de lado.
- O que quer dizer? Você sabe onde está?
- Tem certeza que depois de tudo que
você soube, ainda não conseguiu descobrir?
- Seja prática! – Gritei batendo as mãos
no colchão.
Christine sorriu.
- Natasha. Minha ingênua vampira. O Anjo
protege Allan!
Meus olhos arregalaram. A notícia desceu
rasgando.
- Estou muito surpresa. Como eu não
havia percebido, ele quer Allan, não para encontrar o anjo, era para estar com
anjo. E ele não me disse que estava com Allan porque eu disse que mataria o
protegido. É por isso que hora Allan está sereno, ora possuído.
‘Que
Haboryn, como você sabe é um demônio, mas existem momentos em que ele pode me
tornar um hospedeiro, se assim eu posso-me auto-chamar. ’
Pensei. Agora entendo o que quer dizer.
Tem mais.
Eu
travo uma luta constante entre o bem e o mal em meu coração, em minha vida, às
vezes sinto que não vou agüentar.
- A batalha que ele disse travar é entre
Adriel e Haboryn. Que tola eu fui.
Christine tomou minha atenção tossindo.
- Agora não tenho mais porque estar
aqui. Já vou indo Natasha.
Olhei-a inexpressiva e sem palavras.
Christine levantou e me entregou o talismã. Depois abriu a janela e desapareceu.
Permaneci estática em meu quarto. Acho que agora eu já sei o que fazer.
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