Cap. 25
Voltei
para o Sparks. Agora alimentada eu estava mais forte. Lembrei de uma pessoa que
pode me dar muitas informações boas. O Djin, o demônio dono do Sparks.
O
garçom se sentiu feliz a me ver, pedi mais um dry Martini e comecei a prestar
atenção em todas as pessoas do salão, desde os clientes até os funcionários.
Parecia tudo tranquilo, tudo tão humano e patético que quase não acreditava que
tudo isso aqui é regido por um demônio, se aproximavam tanto dos humanos, e
Djin parecia ser diferente de Haboryn, ele parecia respeitar leis.
Algumas
pessoas me chamaram para dançar, mas dispensei todo tipo de diversão, já estou
bem alimentava, só quero cumprir meu objetivo. Quando enfim, pouco a pouco as
pessoas foram indo embora, alguns extasiados por causa da bebida ou de outros
fatores não tanto naturais, eu fui aguardando, tomando minha bebida preferida e
observando o rosto do garçom que só me via beber e não me via ficando bêbada ou
visitando o toalete.
-
Moça? Esta tudo bem? – Enfim o garçom perguntou.
Observei
sua expressão espantosa – Estou ótima.
-
É que já fomos fechar – Atrevido, pensei comigo, mas ele teria sua hora.
-
Se quiser embora, fique a vontade, minha conversa será com Djin, seu chefe,
creio que ele já saiba que estou aqui.
-
Sim, aqui estou eu Natasha. – Ele ecoou quando surgiu pelas escadas de uma
porta trancada. – Dimitri, pague os funcionários no escritório e me deixe
sozinha com a garota. – Ele disse para o rapaz a sua direita. Parecia ser um
humano.
Seus
funcionários não demoraram em obedecer a sua ordem e então saíram do alcance de
visão.
-
Por favor, Natasha. Venha comigo aqui embaixo, estaremos mais confortáveis. –Balancei
a cabeça num gesto afirmativo e descemos. Foi nostálgico, aquelas câmaras e
escadas me lembravam de a primeira vez que vi o anjo, quando ele estava furioso
pela morte de Annie. Enfim chegamos, num ambiente escuro, iluminado apenas por
velas, havia algumas gárgulas, e quadros antigos, eu tive a impressão de que
eles se moviam.
-
O que devo a honra? – Ele perguntou se sentando a cadeira e mostrando outra
próxima de mim. Então sentei.
-
Djin, estou enlaçada num jogo de destruição e morte. – Ele apenas me observava,
seus olhos vermelhos brilhavam na escuridão. – Conheci um demônio, e ele possui
alguns planos que me desagradam, mas não sei como reagir, como me defender. E
então...
-
E então, você achou que eu pudesse te dar algumas informações para destruir um
irmão de raça?
-
Não exatamente.
-
Ó. Não se preocupe Natasha, sou um demônio, traição e mentiras fazem parte do
meu dia a dia. Qual é o nome do demônio?
Suspirei
quando ele proferiu aquelas palavras, me fez acalmar um pouco, afinal, eu estou
de frente com um demônio, e esse parece bem encarnado, acredito que se tocar em
mim eu poderei estar morta.
-
Haboryn. Esse é seu nome.
-
Hum. Interessante; eu conheço Haboryn, está a séculos em nossa região, só
esperando uma oportunidade para atravessar a este mundo.
-
Você acha que se eu conseguir bloquear a passagem dele para este mundo, eu
consiga vencer suas ameaças? – Perguntei empolgada.
-
Veja bem Natasha. Ele é um espírito, um espírito ruim. E espíritos, são
imortais. Se você bloqueá-lo agora, ele tentara de novo e de novo, e será assim
sempre. Você é uma vampira, também é imortal, mas não se sujeitara a bloqueá-lo
sempre. Concorda?
-
É lógico que concordo. O que eu quero é destruí-lo, ou pelo menos salvar uma
pessoa.
-
O xadrez então ganha características. – Uma vela então se acendeu. Eu assustei,
e notei que ela estava mais próxima de mim do que as outras.
-
O que quer dizer Djin? – Perguntei desconfiada.
-
Não percebe Natasha. O jogo era apenas bloquear o demônio, mas esta em jogo
alguém que você queira muito proteger, isso o torna mais interessante. Mas a
pergunta é: quem é o alguém?
-
É um rapaz. Allan, ele é protegido por um anjo, mas atormentado pelo demônio.
-
E esse anjo por um acaso chama-se Adriel?
-
Sim. O mesmo que protegia Annie.
-
Eu sabia que ele encontraria outro ser. Adriel é jovem, inexperiente, mas é um
iluminado inteligente, aprenderá rápido que não da para salvar todo mundo.
-
Vocês conversam? – Perguntei interessada.
-
Não. Só quando ele pensa que meus demônios matam seus protegidos. – Ele sorriu
e outra vela ainda mais próxima de mim se acendeu.
-
E então. Vai me ajudar? – Perguntei entusiasmada.
-
Claro que sim. Haboryn é um demônio muito poderoso. Talvez mais poderoso que
eu.
-
Como assim. Se ele fosse mais poderoso que você ele já não estaria na terra
como você?
-
Natasha. Não estou na terra por completo. Eu o possuí, esse homem quando ele
estava se definhando como ser humano; ofereci-lhe a imortalidade em troca de
seu corpo. E como todo ser humano é hipócrita e ignorante aceitou meu contrato.
Então lhe mandei para o abismo de seu próprio coração e lhe tomei o lugar no
corpo e então cumprindo minha promessa, dei a seu corpo a imortalidade, e como
eu ordeno seu corpo, é como se eu vivesse eternamente aqui.
-
E porque Haboryn não faz o mesmo.
-
Não estado em que estou Natasha. Meus poderes se tornam muito limitados, e meu
mais poderoso poder é o de comandar outros demônios menores que então me ajudam
aqui em Terra. O que Haboryn quer é vim definitivamente para Terra, com seus
poderes ao máximo, sua ordem ao máximo, então todos se submeteriam ao seu
comando e ele seria o maior entre os mortais e imortais da terra.
-
E porque outro demônio não tentou o mesmo?
-
Porque não é algo fácil de fazer. Exige a essência completa de um anjo. E ele
teve a sorte de Adriel não ter reencarnado, mas sim evoluído e vindo cumprir
missão em Gander.
-
Nossa. Você conhece tanto, há quanto tempo você vive?
-
Há tanto tempo, muito antes de você ter nascido humana. – Eu realmente fiquei
impressionada – Se você fosse capaz de aprisioná-lo Natasha, então o impediria
por muito tempo.
-
E como posso fazer isso?
-
É um segredo até pra mim. Mas dizem que Salomão soube como fazer. – Ele me
encarou por mais um tempo e varias luzes de velas se acenderam. Eu então
assustei. – Vá Natasha. Seu tempo comigo acabou.
-
Tudo bem.
Levantei
da cadeira e parti, eu senti algumas sombras se mexendo, acelerei o passo e
tudo não passou de loucura. As portas do Spark’s estavam abertas, então parti e
elas fecharam. A cidade estava vazia. Também pudera, domingo, a maioria das
pessoas estariam ocupadas no dia seguinte. Fui a pé para minha casa, passei
pelo velho casebre, outro ícone que me faz lembrar-se de Annie, Allan e toda
essa história pela qual estou passando. Djin me deu boas informações, mas
parecia ainda me esconder muita coisa, assim como Christine aparenta e Haboryn
também. Resolvi entrar e treinar minha empatia. Mas fui obrigada a deixar isso
para outro dia. Allan estava embaixo da figueira segurando um gato negro em
mãos.
-
O que você fez Allan? – Corri até ele gritando.
-
Fica longe de mim! – Ele gritou em cordas duplas e havia insetos em sua boca.
Também reparei em seus olhos, estavam negros. Parei imediatamente.
-
Haboryn? – Eu estou um pouco confusa e atordoada.
A
noite ali estava mais escura, e os olhos negros de Allan brilhavam.
-
O que pretende? – Sua voz estava tenebrosa, suas cordas duplas e uma voz
demoníaca.
-
Eu só passei por aqui, e resolvi vir.
-
Mentira! – Ele gritou e grunhiu. Assustando-me ainda mais. – Você quer me
destruir não é mesmo. Mas não vai Natasha, os seus dias estão contados sua
vadia.
Eu
tentei correr, mas fui paralisada pela singela voz de Allan.
-
Natasha. Por favor, me ajude? – Estava tão melancólico e pesaroso. Fui obrigada
a voltar e ajudá-lo.
-
Allan, abandone tudo isso. A magia negra, o demônio. Porque não esquece tudo
isso e tenta ser normal?
-
Porque eu já estou envolvido até o pescoço Natasha. Tenho uma divida com Eric,
já pensei ter uma divida com Will. Mas também fui enganado. Ele e Haboryn estão
juntos.
-
Eric está morto!
-
Não. Você está enganada, ele esta entre a vida e a morte. E eu não posso
salva-lo, talvez ninguém possa.
-
Então o deixe e segue sua vida. – Tentei me acalmar.
-
A minha alma é dele! – Ele enfim falou, pareceu sentir um grande alivio ao
dizer.
-
Sua alma. Como assim?
-
Eu vendi para ganhar poderes. Você nunca entenderia não é mesmo. É uma vampira,
destruir é seu prazer, tem poderes à vontade, sem exigir sacrifício.
-
O que você esta dizendo? – Estou perplexa com suas palavras.
-
Eu a invejava e desejei ser tão poderoso que pudesse até mesmo destruir você.
-
E conseguiu? – Comecei a ficar preocupada.
-
Sim. Mas o preço foi minha alma. Tenho o poder do filho da serpente. –
Arregalei os olhos, temendo-o.
-
Você agiu como Will. E hoje você vê o destino que ele teve?
-
Não me importa. Desde que eu tenha o gosto de usar meus poderes, nada mais me
importa.
-
Nem a mim importa a você? – Tentei ser frágil.
-
Nem tampouco você – a ultima palavra saiu tremula e com duplas cordas. Estava
tudo esquentando por ali e um cheiro de enxofre invadiu o lugar. Temi ainda
mais, lembrando-se das palavras de Silas.
-
Haboryn!
-
Olá Natasha. Ainda confusa?
-
Não mais, eu estou com você. Mas agora tenho que partir. Preciso executar um
plano. – Menti para ele e para mim mesma. Eu quis sair dali, estava tudo
difícil demais pra mim. Entrei no bairro e já foi para uma das primeiras, a
mansão de Christine. Mesmo sabendo que eu não poderia confiar tanto, agora
sabendo de tantas coisas que ela fez, mas ela ainda é meu porto seguro.
Chegando
a mansão, não consegui avistar nem Christine nem John, rodeei a casa e nos
fundos eu vi Christine, estava feliz, sorridente, ela rodopiava feito uma
criança, e quando enfim se jogou ao chão, exausta eu me apresentei.
-
Christine? Está tudo bem?
Ela
me olhou sorridente
-
Estou ótima, sente-se aqui do meu lado.
-
O que foi isso que eu vi?
-
Hoje é o dia da liberdade, e eu como uma bruxa de tradição, uso esse dia para
me livrar das preocupações, das perturbações e mostrar a Grande Mãe que estou
feliz em estar viva.
-
Que lindo. Mas acho que seu dia foi tranquilo, porque agora a noite venho lhe
trazer minhas preocupações.
-
Eu imaginei. Você só vem aqui em casa quando precisa de alguma coisa. Já
reparou.
-
Ah. Nem sempre. Posso começar.
-
Por favor.
-
Então lá vou eu. Estou confusa com muitas coisas Christine.
-
Natasha. Você precisa parar de dar rodeios, se abra pra mim, te conheço a mais
de um século.
-
É. Você tem razão. O anjo, o demônio e Allan, eles são minhas preocupações.
-
Natasha. Os três não tem nada haver com você, pare de se envolver nessa
disputa, ela não é sua, e quem sai mais magoada é você. Já percebeu o quão
humana você esta. Nem parece mais a mesma Natasha de outrora, a destemida, a
caçadora.
-
Você tem razão, mas acho que já fui longe demais. Sou uma espécie de melhor
amiga pra Allan, Haboryn tenta me colocar no topo que quiser, basta seguir seus
planos e o anjo, é o único que não tem planos pra mim, no entanto é o que eu
mais quero ter em meus braços.
-
Doce ilusão minha cara. Você se deixou se envolver, mas qualquer pessoa que se
aproximasse de Allan ele se apegaria. Você não vê, ele é um menino sozinho.
Haboryn quer só seguir o seu próprio plano, e se você pode ajudá-lo, ele
certamente te ofereça o mundo, como ele faria pra qualquer pessoa que se dispusesse
a ajudá-lo. E o anjo. Natasha, ele não pertence a esse mundo nem a ninguém
daqui. Quando ele te vê, ele só sabe falar de seus protegidos. E você, egoísta
e como qualquer vampira, achasse sedutora, se um macho consegue burlar sua
sedução você certamente se apaixonaria.
-
Nossa. Os anos fez de você uma boa psicóloga.
-
Obrigada querida. Agora venha comigo, quero lhe mostrar algo.
Segui-a
para dentro da casa pela porta dos fundos. Um alçapão nos levou para os
subterrâneos da mansão. Descendo as escadas uma escuridão foi tomando conta,
umas velas se acenderam no centro, pareciam flutuar. Quando nos aproximamos,
pude ver melhor, as velas estavam sobrepostas num poço.
-
O que é isso Christine? – Eu estava intrigada.
-
Isso é um poço de águas negras. Ele reflete a vida das pessoas.
-
Qualquer pessoa? – Meu interesse foi crescendo.
-
Qualquer pessoa. – ela confirmou. – Quero que veja o que Allan e Haboryn estão
fazendo neste instante.
Quando
estiquei meu pescoço para ver as águas esbravejaram, Christine pedia para eu
pensar em Allan. E então lá estava a imagem. As águas tomaram formas, refletiam
Allan em pé sob a figueira, ele parecia falar alguma coisa, mas o poço não me
permitia ouvir. Ele buscou um balde com água e então colocou seus braços dentro
e fechou os olhos. Por um tempo ele pareceu imóvel. Christine pediu para eu
pensar em Haboryn. Então me vi num hospital, estava tudo tão confuso, magia é
algo muito recém pra mim. Mas o fato é que caminhei pelos corredores e vi um
homem alto, todo de preto, um pouco franzino, mas um rosto um tanto
desproporcional para o resto do corpo. Ele está de mãos cruzadas e olhava pela
“vitrine” de um quarto do hospital. Tentei me aproximar, devagar, ele notou
alguma coisa e olhou para o lado, olhei junto com ele, e vi uma sombra que se
aproximava. Eu estava com medo, parecia estar encurralada, mas a sombra me
atravessou, então lembrei que estou só olhando. Isso me confortou. Avancei até
entrar no quarto, e vi o Eric, deitado numa maca. Ele respirava e parecia
sonhar. De longe ouvi a voz de Christine, ela pediu para me pensar no Eric.
Então pensei, o cenário mudou novamente, eu estava num cemitério, sim o de Gander.
E Eric estava deitado sobre um túmulo e ele chorava. Quando observei sua
lagrima cair, um estalo eu ouvi e voltei para aonde eu estava. Christine me
observando e eu a olhava, incrédula.
-
O que eles estão fazendo? – Perguntei horrorizada.
-
Eles estão fazendo testes para achar uma forma de usar o corpo do Eric para
trazer Will de volta.
-
Christine. Porque você não termina tudo isso e simplesmente desfaz o feitiço?
-
Porque não é possível. Uma vez feito qualquer feitiço, ele deve correr o seu
curso natural. Vai chegar uma hora que envelhecerei novamente, e então Will
poderá voltar, mas até lá terá que viver como um gato.
-
E Haboryn, você é uma bruxa, pode mandá-lo para o inferno não pode?
-
Ele vim para cá ou não, isso não me importa, desde que ele não se meta comigo,
ele é livre para fazer o que quiser.
-
Patético. Eu acho que você o teme.
-
Não temo a ninguém. Só não sou como você; não vou entrar numa briga que ainda
não é minha. Eu os conheço Natasha, sei que podem mudar suas opiniões e ações o
tempo todo.
Senti
que ela tivesse razão, mas ainda não consigo excluir a possibilidade dela estar
amedrontada. Ou talvez nem esteja, afinal, é uma bruxa tão antiga.
-
Como sempre, você pode ter razão. Mas acho que cometeu um grande erro
aprisionando Will.
-
Sim Natasha. Cometi muitos erros há tempos atrás, e achei que se eu não
comentasse com ninguém isso só seriam paginas viradas em meu diário. Mas me
enganei. Tudo que eu plantei eu começo a colher agora.
-
Um dia eu quero sentar ao seu lado e quero que você me conte tudo.
-
Um dia Natasha. Um dia eu poderei te contar todos os meus segredos.
-
Vou esperar. – Falei otimista.
-
Mas agora, se eu fosse você eu corria para o cemitério, Eric ainda deve estar
lá.
-
Verdade. Não foi só uma visão, é o que esta acontecendo em tempo real. Sim, eu
vou lá agora mesmo.
Cap. 26
Não
demorei a chegar ao cemitério de All
Saints Cemetary. Estava enorme, eu quase nunca ia, e dessa vez para que
houvesse aumentado o numero de mortos. Talvez Silas esteja certo, estamos
matando indiscriminadamente. Procurei durante um tempo, mas não encontrava
ninguém, o cemitério estava vazio, me lembrava cenas de demônios, e rapidamente
Haboryn cercava meus pensamentos, cheguei até a temer. Quando enfim sobre uma
sepultura, um jovem chorava esmagando uma rosa vermelha em suas mãos.
Aproximei-me
lentamente, temendo assustá-lo, na verdade eu estou um pouco assustada, eu não
sei se devo temê-lo ou vice-versa. Está-se morto ou vivo, ou que estão fazendo
com ele.
-
Olá? – Saiu timidamente.
Seu
olhar em lágrimas encontrou meu rosto, ficou uns instantes tentando focar-me
então disse: - Quem é você?
-
Não me reconhece Eric? – Ele parecia estar sob um estado de amnésia, parecia
tão sereno.
-
Receio que não. É minha parenta? Tem alguma ligação comigo?
-
Bem de longe – Essa foi minha resposta, mas por dentro eu dizia “Sim. Com a sua
morte!”. Sorri receosa.
-
Estou perdido em dois mundos. Quando sonho, eu surjo aqui, nesse cemitério, já
o explorei, mas não encontro formas de sair. Quando enfim acordo, no deitar da
lua, então eu estou num hospital velho tomando algum tipo de soro vermelho.
-
Já chegou a imaginar que nenhum dos dois são sonhos?
-
O que quer dizer? Alias como é seu nome?
-
Perdão. Sou Annie. – Menti meu nome, afinal Will saberia se eu dissesse ser eu,
e fiquei tão feliz em ser Annie.
-
Continua, por favor. – Ele parecia muito interessado, talvez eu fosse à única
pessoa que ele encontrou durante os dias que esta aqui.
-
Você pode estar preso em duas dimensões. Conhece alguém no hospital?
-
Sim. Uma sombra que sempre esta me observando, se chama Will.
-
Mais alguém?
-
A uma linda enfermeira, loira e cativante.
-
E o que eles dizem a você? – comecei a ficar eufórica.
-
Dizem que ouve um acidente de carro e eu fui parar no tal hospital. Mas já vai
fazer uma semana que eu estou internado e não vejo melhoras.
-
E porque choras sobre esse tumulo?
-
Porque aqui jaz o meu melhor amigo. Ele foi morto durante o acidente. E eu
conduzia o veiculo quando batemos contra uma arvore grande.
Eu
olhei no tumulo e tinha a foto dele e uma frase “Que a arqueologia lhe
transforme numa relíquia valiosa e que para nós nunca nos esqueçamos do brilho
que esta em seu coração de diamante”. Esse é seu próprio tumulo.
-
É a foto de seu amigo que vê quando olha?
-
Na verdade não. Eu não vejo nada, nem fotos, nem escritos, mas deduzi que
fosse.
-
Compreendo. – Respirei uns instantes e ele derramou lagrimas olhando para a
lápide. – Tenho que ir. Mas prometo a você que volta com novas informações.
Eric
levantou e olhou profundamente em meus olhos.
-
Tome esta rosa vermelha despedaçada. – Ele ergueu o braço e abriu as mãos. –
Como um gesto de amizade, as pétalas lembrarão seus cabelos e quando eu
despertar lembrar-me-ei de você.
Segurei
à rosa despedaçada e parti. Confesso estar abalada, ele é tão sedutor e
romântico. Eu não consigo compreender o que se passa comigo, estou me
comportando como uma adolescente boba e apaixonada por qualquer rapaz que me
faça uma gentileza. Eu preciso só espairecer um pouco, uma ida ao lago me fará
muito bem.
Despi-me
toda quando cheguei, os ventos fortes passavam por mim, e se eu fosse viva, com
certeza me arrepiaria. Subi até a pedra e pulei, sentindo-me cortar as águas,
deixando-as para trás, é isso que eu precisava agora, deixar meus problemas
para trás e “respirar”. Mas uma luz sobre a água me tirou a paz. Coloquei minha
cabeça para fora e vi o anjo, novamente sobre o mesmo lugar, minhas roupas
estavam ali, próximas dele. Fiquei até curiosa em saber se seu toque me
mataria, ou me daria prazeres desconhecidos. Ele estava imóvel, com os braços
ao redor de suas pernas flexionadas. E suas asas estavam quietas sobre suas
costas.
-
Oi. – Sutilmente mostrei minha posição. Ele me olhou incrédulo por alguns
instantes e depois sorriu.
-
Que bom que está aqui – Sorriu – me deu um susto.
-
Está tão tristonho. Aconteceu alguma coisa?
-
Não mais do que o normal. É que ando recebendo algumas advertências.
-
Imagino como deve ser difícil. Será que posso ir até ai?
-
Claro. Seria ótimo.
Lentamente
foi nadando até a costa. E saindo das águas, notei que os olhos do anjo
percorreram meu corpo num todo. As gotas de água que corriam pela minha pele
macia pareciam por alguns instantes hipnotizá-lo.
-
Está nua. – Ele disse perplexo.
-
Mas você é um anjo. Quer dizer, já deve ter visto Annie nua.
-
Sim. E ela era tão perfeita. – Ele disse enquanto eu forçava um sorriso.
-
Minhas roupas estão próximas de você. Quando chegar até ai irei me vestir.
-
Tudo bem. Você também é tão linda.
-
Obrigada. – Corei.
-
Mas o que fazia tomando banho essa hora da noite? – Ele me perguntava enquanto
seus olhos rodopiavam meu corpo.
-
Eu gosto de fazer isso algumas vezes. Acalma minha vida.
-
Entendo. Talvez eu devesse pular também. O que acha?
-
Bom. Se sua vida está conturbada, nada do que um belo mergulho no lago Gander.
Vai se sentir fantástico.
-
Quer saber. Farei como você. – Ele está tão empolgado, chegou a me contagiar.
O
anjo despiu-se, seu corpo angelical todo personificado num másculo ser de asas.
Com seus músculos definidos, suas asas esticadas, seu corpo brilhante e como
tudo não poderia ser perfeito, seu membro estava oculto, ou pelo menos eu não
pude enxergar, isso me motivou mais ainda.
Do
alto da pedra, ele ereto saltou e mergulhou no imenso lago Gander. As águas
fizeram inúmeras pequenas ondas, e alguns segundos mais tarde ele emergiu tão
próximo de mim que me deixou zonza. Mas eu estava me sentindo mais forte do que
da ultima vez, parecia que ele estava perdendo sua essência e se tornando mais
fraco. Ele estava tão próximo que eu o temia, eu afastava mais para trás e ele
começou a notar.
-
Porque se afastas de mim sempre que me aproximo?
-
É porque eu talvez o tema.
-
E porque temeria a mim que sou enviado dos céus?
-
Porque não se suportaria ser tocado por ti.
Um
breve silencio se fez enquanto ele me analisava com seus olhos prateados.
-
Não temas. Deixe-me tocar em ti, para que sinta a luz do Senhor?
Um
vento gélido passou em minha espinha e acho que por todo o lago. Olhei para os
céus e o anjo me acompanhou. O céu estava fechado e pequenos flocos de neve
começaram a cair.
-
Está nevando. – Falei abobada.
-
Sim. E é tão branco quanto o manto que uso.
-
E tão lindo quanto você. – Ousei em dizer.
-
Você é gentil. Não devia me temer.
-
Desculpe.
Ele
então se aproximou. Fui obrigada a parar. Meu coração por alguns instantes
parecia ter voltado a bater, e comecei a sentir medo e muita ansiedade. Ele não
parecia nadar, balançavam as pernas como se andasse por entre a água.
-
Acho que seria melhor que fossemos embora. A neve poderá nos congelar aqui.
Ele
sorriu.
-
Não se preocupe, eu não deixarei que nenhum mal aconteça a você.
Ele
finalmente me tocou, senti minhas células queimarem, minha pele parecia
plástico que se enrolava com aquela luz caminhando meu corpo. Depois que me
tornei vampira, eu nunca havia pensado como seria se eu fosse destruída. Mas
sei que agora, ser destruída dessa maneira seria o melhor. O que eu me tornei
vai contra os filhos do Único Acima, e morrer nas mãos de um de seus anjos é
como fazer-se justiça. Quando nem ao menos terminei de concluir meus
pensamentos a beira da destruição, a luz como um raio cobriu todo meu corpo e
então desacordei.
Acordei
um tempo depois sobre as pedras do lago. O anjo estava do meu lado e uma
fogueira estava construída entre nós. Minha pele estava dolorida, coloquei
minhas mãos sobre elas e senti dor, estavam queimadas, derretidas. Mas fiquei
feliz em saber que ele não me levará a um hospital, mas temi em pensar que ele
soubesse minha identidade.
-
Olá? – Ele disse preocupado.
-
Oi. – Falei ainda zonza e colocando a mão na cabeça.
-
Que bom que acordou. Acho que estava certa. Fiz você desmaiar.
-
É. Acho que sim. Agora entende porque me afasto.
-
Sim. E isso me deixou triste. Tenho um ser humano que posso confiar, mas não
posso tocá-lo. – Fiquei feliz quando disse ser humano. Minha mascara ainda
estava sobre meu rosto.
Eu
nem havia notado que a neve já cobrirá grande parte e que uma chuva caia sobre
minha cabeça.
-
Estou a quanto tempo desacordado?
-
Já faz algumas horas. Mas o que me preocupa são seus machucados.
Passei
a mão sobre eles novamente e não mais os senti. Estava completamente curada.
-
Tudo bem. Meu organismo é forte. Daqui a pouco estará tudo como antes. – Ele
sorriu.
-
Agora que está tudo bem. Quero te levar em casa e ir atrás de Allan. Quero
saber se está tudo bem.
Levantei
e observei os céus novamente.
-
Você é tão especial. – Disse empolgada.
-
Você também. E gosto muito de estar contigo.
No
caminho até minha casa fomos conversando sobre a minha reação. O meu desmaio,
os hematomas deixados por ele. Pude sentir que ele estava muito decepcionado
consigo mesmo. Se sentindo sozinho nesse mundo de trevas.
-
No final tudo acaba bem Adriel.
-
Eu espero que sim. Mas se não for nessa vida, Allan e Annie terão outras
chances.
-
Então realmente existem outras vidas? – Perguntei entusiasmada.
-
Sim, sim. O Senhor dá novas chances a muita gente. O importante é que evoluamos
sempre. – Então pensei comigo mesmo, poderá então um dia, eu que vivo
eternamente possa reencontrar alguém que eu mesma matei. E ele então voltaria
para se vingar. Como será que ele voltaria? Sorri.
-
E como funciona com os anjos?
-
O mesmo processo. Anjos são seres de luz evoluídos, e seres de luz é espíritos
evoluídos, que estes por sua vez são seres humanos evoluídos. E assim vai.
-
Então você já foi um humano?
-
Acredito que sim. Mas não lembro nada da minha existência, só das virtudes que
me colocaram aqui.
-
Quem viveu com você quando era humano teve muita sorte.
-
Obrigado. Acredito que quem viver com você também terá a mesma sorte.
Corei
e então sorri.
Ao
entrar na mansão, fui direto para o meu quarto. Ultimamente estou tão caseira,
a sala costumava ser meu lugar ideal para pensamentos, mas ultimamente ele anda
tão cheio com os outros moradores que mal vejo na mansão. O fato é que o meu
quarto se tornou meu maior confidente.
Não
demoraria a amanhecer, e quando isso enfim ocorre iria atrás de Allan. Acho que
ele precisa de ajuda, a prioridade para ele é salvar Eric, é se livrar de
Haboryn, mas a compaixão que ele sente por Will pode o atrapalhar. Sem falar
sua sede por poder. Ele não desistirá de ser grande para simplesmente salvar a
vida de alguém que pra muitos esta morto.
-
Natasha? – O doce sotaque francês me chamava do outro lado da porta.
-
Nem precisa me perguntar Melissa. De meia volta, ainda não percebeu o quanto
não é bem vinda em meu quarto?
A
porta então se abriu.
-
Perdon Natasha. Mas preciso falar com tu.
-
Seja objetiva.
-
De que lado você está?
-
O que está perguntando. Existe um lado agora?
-
Você começou a agir só por você, não liga mais pra ordem, está andando com
inimigos, sinceramente, não sabemos o que está acontecendo contigo.
-
Ainda não estou entendendo. Mas o que você pode dizer. Está do lado de Haboryn,
e até onde eu sei, ele também é nosso inimigo.
-
Agora eu non sei o que esta dizendo Natasha. Quem é Haboryn? – Ela sorriu.
-
Dissimulada. O que esta tentando enganar.
Ouvi
uns passos e um rosto surgiu na porta.
-
Trago a mesma indagação Natasha. O que está acontecendo com você? – Silas
entrava calmamente em meu quarto.
-
Silas. Não seja ludibriado por ela. Melissa é má, ela está atrás de glória, e
Haboryn trará isso a ela.
-
Haboryn nos destruirá. Já que você não faz mais o que mando, agi por si só, ao
lado de dois poderosos inimigos. O que você acha que vai ganhar com isso?
Glória, como você insulta Melissa?
Melissa
apenas me observava com um rosto inexpressivo.
-
Silas. Eu estou com vocês, sempre tive.
-
Então demonstre Natasha. Mude o futuro que eu infelizmente vi.
-
E porque você não tenta ver o futuro de Melissa, vai saber pra quem ela é fiel.
-
Eu já vi Natasha. E não é ela que me preocupa, e sim você.
-
Saiam do meu quarto.
Silas
e Melissa se entreolharam e então Melissa levantou da cama e foi até Silas. Os
dois então viraram as costas para mim.
-
Não vai se arrepender de suas ações Natasha. Não deixe que ela te leve a
destruição novamente.
-
O que quer dizer com novamente? – Olhei fixo enquanto ele partia. – Olhe para
mim e responda! – Gritei, mas eles simplesmente sumiram.
A
luz do dia invadiu o meu quarto. Decidi que era a hora exata para eu ir atrás
de Allan. No caminho, antes mesmo de sair do bairro resolvi parar na casa de
Christine.
Toquei
a campainha, e Christine surgiu ao lado da mansão, com as mãos todas sujas de
terra.
-
Olá Natasha. Venha até aqui, estou mexendo no jardim.
-
Ah sim. Acordou cedo e já está trabalhando.
-
É. A vida não para, e tenho que acompanha-la.
-
Você deve temer muito a morte não é mesmo.
-
Não a morte, mas a velhice. Se eu puder continuar jovem para sempre. Assim eu
serei.
-
Mesmo que isso exija sacrifícios humanos?
-
Eu sinto muito. Mas realizo algumas vezes, de anos em anos, e procuro pessoas
que não terão mais chance de viver.
-
É. Eu ando um tanto dramática, afinal, mato mais pessoas do que você. E nós
duas matamos por sobrevivência. Quer dizer. Você talvez mate por estética. –
Sorri.
-
Não pense que é fácil sobreviver com esse peso. Mas depois de um século, tudo
parece tranquilo.
-
Até encontrarmos com um anjo. Então ele vira nossa vida de cabeça pros ares. –
Gargalhei.
Christine
gargalhou junto comigo. Fazia um tempo que não nos divertíamos, como
antigamente, como grandes amigas. Resolvi ajudá-la.
-
O que posso fazer para ajudar?
-
Pegue essa pá na minha mão e cavouque nos cravos brancos e coloque no carrinho.
Quando
peguei a pá notei que suas mãos estavam um tanto enrugadas, envelhecidas.
-
O que está acontecendo com sua mão?
Ao
olhar ela exclamou
-
Não acredito! Está voltando tudo de novo!
-
O que está voltando – a olhei intrigada.
-
Estou envelhecendo novamente, daqui uns dias precisarei de mais um corpo senão
morrerei! – Ela se olhou novamente e virou até mim – Vá Natasha. Deixe-me aqui
sozinha.
Fiz
o que ela pediu e então parti.
Cap 27.
Agora
Christine deixaria a trivialidade que era seu belo jardim e procuraria por uma
nova fonte de juventude. Só espero que
sua próxima vítima esteja em estado vegetativo irreversível, pensei divertida.
Assim ela não teria tempo de apelar para o lado bom de Christine e pedir por
sua vida, e assim não haveria outros problemas como o de Will. Suspirei
desanimada. Eu sabia que minha visita a Christine seria breve, mas não tão
breve quanto fora. Caminhei a passos largos e decididos para encontra-me
novamente com Allan. Um humano que me deixava confusa, um humano que agora
tinha poderes para me destruir, mais que eu sei que ele não o faria, mais
Haboryn sim, os antigos planos dele para mim mudaram drasticamente, Allan
dissera que não significo nada pra ele, mais não era ele e sim o filho da
serpente. Ainda significo alguma coisa para Allan e ele não me machucaria. Ao
proferir essas palavras em meus pensamentos um sorriso surgiu em meus lábios.Mais
se provocado Haboryn o faria.
Adriel
recebera algumas advertências, quais?O de Novamente estar tento sentimentos
proibidos por humanos?As imagens da noite em que eu os vira no lado Gander
tomaram minha mente por alguns instantes. A aura dos dois anjos juntos me
deixou fraca, mesmo eu estando a uma distancia considerável, eu me sentia
enjoada, meus ouvidos zumbiam, mais consegui escutar as palavras angélicas e
duras do Anjo Uriel. Raiva, paixão, tristeza, sentimentos humanos proibidos a
anjos... Vampiros. Adriel fora repreendido por ter se apaixonado por uma
humana, por sentir raiva a ponto de ir pedir explicações a Djin. O que Adriel
faria caso soubesse que demônio algum tinha a ver com a morte de Annie? Se
soubesse que eu me deliciara com o seu sangue doce e único? Balancei a cabeça
afastando esses pensamentos, eu não queria saber, eu queria que ele voltasse a
me tocar com da ultima vez, não para conseguir vingança. Franzi o seno Adriel
me tocara e eu apenas sofri algumas queimaduras, isso significa que ele está
mais fraco? Ou que se certa forma eu estava mais forte? Será que um dia ele poderia me tocar
livremente? Sem me ferir? Isso não importava por hora, mesmo assim tal fato me
deixou feliz, era como se meu coração voltasse a bater com força.
De
tão absorta em meus pensamentos eu não havia percebido que eu havia diminuído
meus passos, decidi que me concentraria em Allan por hora. Ainda era muito cedo
e Allan não estaria na escola, talvez nem mesmo a freqüentasse. Cheguei a
frente da casa de Allan, pelo cheiro ele estava em casa, ele ainda a
freqüentava, talvez não quisesse a policia procurando-o era melhor manter as
aparências. Dei a volta na casa, olhei em volta, não havia ninguém, então me
impulsionei para conseguir me segurar no parapeito da janela. Por sorte a
janela estava apenas encostada, ou talvez ele já me esperasse. Ele estava
deitado de bruços, sem camisa, pude ver os músculos de suas costas bem
definidos. Abri a janela e o vento
gélido da manha infiltrou para dentro do quarto fazendo com que Allan voltasse
à atenção para mim.
-
Podemos conversar? – eu disse fechando a janela com um meio sorriso. Mesmo que
eu recebesse uma resposta negativa eu não sairia dali. Ele não respondeu apenas
se limitou a senta-se no centro da cama, com os joelhos de encontro ao tórax
bem definido.
-
Seja breve, tenho aula hoje. – ele disse entanto parecer ceco.
-
Ainda a freqüenta? – ele não disse nada, apenas ergueu uma das sobrancelhas, e
se recostou no encosto da cama esticando as penas e cruzando os tornozelos.
-
Tenho certeza que você não veio aqui para falarmos sobre eu freqüentar ou
deixar de freqüentar a escola. – Fiz uma pequena reverencia com a cabeça, me
aproximando da cama.
-
Você tem razão.– fiquei em silencio por alguns instantes sentei-me ao seu lado,
encostando minhas contas na cabeceira da cama. Allan saberia que era o
receptáculo de Haboryn? Não, claro que não. – Você sabe como Haboryn pretende
vir a Terra? – eu sabia muito bem a resposta, mesmo assim perguntei.
-
Ele precisava de Annie, de algum modo, era uma protegida. Apenas sei que ele
precisa do anjo. Por que? – Caso Allan soubesse que ele é o novo receptáculo o
que ele poderia fazer? Nada. Haboryn poderia pegar-lhe de volta os poderes que
lhe dera, sem pensar suas vezes, sem se importar em quebrar sua palavra. Além
do que como Djin dissera eles era demônios e tais feitos fazem parte da
existência deles. Resolvi que não
contaria nada para ele, de nada adiantaria. Talvez fosse melhor assim.
-
Nada – limitei-me a responder. Um pesado silêncio caiu sobre nos, mais antes
que ele me pedisse para partir perguntei. –Já
testou seus poderesO que você pretende fazer com eles? Valeu à pena perder sua
alma por eles? – Por mais que minhas
palavras parecessem receosas, meu tom de voz não o aparentava. – Vai conseguir
ajudar Erick com eles?
-
Como se você se importasse comigo, ou com Erick – ele disse ríspido. Eu
arregalei de leve os olhos antes de sorrir e confessar.
-
Eu não me importo com Erick, ele não significa nada, o caso é que... Pode
parecer estranho e é, mais eu aprendi a me importar com você, tanto é que quero
ajudá-lo de alguma forma.– ele engoliu em seco.
-
Ainda não tenho certeza, mesmo tendo esses poderes – ele disse olhando para as
mãos – ainda não sei o que posso ou não fazer com eles – ele ainda observava as
mãos e eu segui seu olhar. Será que agora que ele tinha os poderes do filho da
serpente ele poderia me destruir com um simples toque?Ou só se ele quisesse?
-
Se você tem tais poderes pode ajudá-lo. Além do que você sabe magia negra, não?
– eu fixei meu olhar em seu perfil bem feito.
-
Mais como? – ele me olhou.
-
Infelizmente não tenho essa resposta. – eu o fitei, seus olhos azuis olhava
fixamente os meus. – Será que com esses
poderes você faz tudo, exatamente tudo que um filho da serpente faz? – ele
franziu o seno, sem entender onde exatamente eu pretendia chegar. Eu precisava saber se eu teria que ficar
fugindo de qualquer contato com ele – Quero dizer – acomodei-me um pouco mais
na cama. Será que você pode me eliminar com um simples toque? –Mordi de leve os
lábios, ele voltou o olhar para as mãos e encolheu as pernas.
-
Não sei – suas palavras saíram como um sussurro, ele não podia saber claro, ele
não tinha idéia da extensão de seus poderes. Mais eu precisava saber, então
como se ele lesse meus pensamentos ele voltou a me fitar. Umedeci os lábios
sedutoramente, antes de aproximar minha mão do seu rosto. Eu não tinha plena certeza
do que eu estava fazendo, mais Adriel me tocara e ainda estou viva, Allan ainda
é humano. Talvez...
Eu
me aproximei minha mão um pouco mais de seu rosto, sem tocá-lo, sem tirar meus
olhos dos dele. Nossos rostos estavam próximos um do outro, então venci a
distancia e nossos lábios se tocaram ao mesmo tempo minha mão tocou seu rosto.
Pareceu que ele nem ao menos percebeu a temperatura do meu toque. Afastei-me
ainda com minha mão em seu rosto, fora um beijo rápido e talvez inesperado para
Allan, ele abriu os olhos lentamente antes de voltar a me fitar, seus olhos
adquiriram um azul intenso. Seus lábios tentadores. Então voltei a beijá-lo,
não tinha exata certeza do que eu estava fazendo eu apenas seguia meus
instintos. Beijei-o com sofreguidão e fui correspondida com a mesma
intensidade, mudei de posição ainda beijando-o, Allan esticou as pernas de modo
que as pernas ficassem flexionadas segurou-me pela cintura fazendo com que eu
me sentasse em seu colo, com cada perna em um lado de seu corpo aprofundei o
beijo, puxei seus cabelos pela nuca inclinando sua cabeça. Minhas mãos
impacientes exploravam os músculos do corpo em definido. Sem conseguir me
conter, continuei a exploração de seus músculos, do braço, do tórax, do
abdômen.
Senti-o
arfar mesmo assim não interrompi o beijo e minha exploração. Na posição em que
eu me encontrava eu pude sentir sua excitação. De repente ouvi passos. Tarde de mais.
-
Allan – a porta foi aberta bruscamente. Allan olhou para as próprias mãos, como
se me procurasse nelas antes de voltar à atenção para a visitante recente.
Consegui camuflar-me a tempo em meio às sombras. Tinha certeza que Allan não explicaria
muito bem minha presença ali, muito menos como eu subira até o segundo andar
sem ao menos passar pela porta, e meus olhos. Eu sabia que eles não mais
ostentavam a coloração tradicional, muito menos meus cabelos.
No
instante em que percebi que os passos pesados haviam parado por um instante,
não tinha tempo para explicar o porquê de ter me afastado tão bruscamente de
Allan.
-
Você está todo vermelho, está tudo bem? – as palavras eram maternas, não
ostentavam uma preocupação rela. Ele balançou a cabeça afirmativamente antes de
dizer.
-
Está tudo bem – ele disse levantando-se da cama e indo para o guarda-roupa,
onde pegou uma camisa preta que ficou justa em seu corpo bem definido.
-
O café está pronto se você quiser. – Então ela saiu do quarto. Allan ainda
estava de costas para porta. Eu me encostei-me a ela, com uma das pernas
flexionada de modo que meu pé tocasse a porta atrás de mim. Fiquei com os
braços cruzados, agora tendo certeza que meus olhos e cabelos estavam na medida
do possível normais, procurei concentrar-me no ocorrido.
Será
que ele estaria arrependido? Mesmo que estivesse não me importava. Da ultima
vez alguma coisa me impediu de desfrutar certos prazeres, então pouco me
importava. Um sorriso formou-se em meus lábios. Então ele voltou a atenção para
mim.
-
Por quê? B... Beijou-me?
-
Arrependeu-se por ter me correspondido? – me impulsionei com meu pé e fui a sua
direção, Allan fez o mesmo. Como para responder minha pergunta ele puxou-me
pela cintura de encontro a seu corpo, e com a outra mão encaixou-a em minha
nuca, beijando-me antes de se afastar.
-
Não. Apenas dói. – ele não disse mais nada. Mais eu entendi o que ele quis
disser. Isso significou alguma coisa para ele, alguma coisa de verdade e para
mim, nem tanto, mais fora uma experiência e tanto. Não sei o quanto significou
para ele, mais era apenas um teste para saber se seu toque poderia me destruir
ou não. Suspirei, procurando me convencer do tal.
Ficamos
ali em silencio por alguns instantes, enquanto eu observava seus movimentos. De
um canto do quarto ele pegou uma mochila, onde ele colocou algumas coisas que
não pude identificar, pois ele bloqueou minha visão.
-
Hoje vou ver o que posso ou não fazer. – Antes que ele pudesse dizer mais
alguma coisa me dirigi até a janela. Abri-a. Ele testaria os poderes.
-
Não pretendia feri-lo, apenas queria testar... – decidi não terminar a frase,
ele saberia o resto. E repetir a frase para mim mesma não adiantaria não me
convenceria mais do que eu já estava.
Olhei rapidamente ao redor antes de pular lá em baixo. Cai como uma
gata. Parei alguns instantes e olhei para a janela. Temente não poder ajudá-lo
em nada.
Segui
meu caminho, sem saber que direção tomar.
Eu poderia segui-lo para ver a extensão de seus poderes. Mais nos dois
precisávamos de algum tempo. Depois eu descobriria, se deveria temê-lo ou não. Segui para a mansão na velocidade sobre
humana que me fora proporcionada ao meu renascimento. Em poucos segundos eu
estava em meu quarto. Meu refúgio de todas as horas. Onde me deitei na cama e
fechei os olhos. Queria poder dormir. Mais eu não podia. Voltei a abrir os
olhos fiquei olhando para teto, as sombras faziam imagens distorcidas que não
pude identificar. Sorte. Já que eu sempre os via, até mesmo sem pequenas
sombras no chão ou em qualquer outro lugar. Suspirei.
Mesmo
não tendo me arrependido do beijo que eu dera em Allan, eu agia como se isso me
pesasse, como se eu sentisse remorso. Mais não era isso, eu tinha certeza. Apenas
não descobri o que era. Fiquei ali durante as próximas horas que se seguiram,
tentando manter minha mente vazia, o que era difícil com tantas coisas
acontecendo ao mesmo tempo. O que mais faltava acontecer? Eu estava exalta,
cansada dessa loucura que se tornara minha vida. Esse conflito não era meu, por
que eu me metia tanto como esses seres tão diferentes de mim. Adriel, Haboryn,
Allan, Will... O que eu posso ter a ver com eles? Minha intromissão deveria ser
única e silenciosa. Mais não importava mais eu já estou envolvida ate o pescoço,
por que ser uma intrometida.
Uma
vampira quebrada, talvez essa fosse minha nova definição, mesmo eu não me
julgando, esses sentimentos que afloram em mim, sem permissão isso me fazia uma
vampira quebrada. Por que simplesmente eu não deixava tudo de lado? Eu sabia
exatamente qual era a resposta, não seria tão simples deixar tudo, para eu
voltar e ser a velha Natasha de antes.
Todo
esse discurso em minha mente fazia-me sentir mais cansada. De certo modo
parecia que minhas pálpebras se tornavam pesadas, então desisti de deixa-las
abertas e as fechei mesmo não sentindo sono, mesmo não podendo dormir. Minha
mente continuava a fervilhar, com todos os acontecimentos de tão poucos meses.
Procurei concentrar-me em qualquer coisa menos nas tantas perguntas que
surgiram em minha mente do nada.
Abri
os olhos bruscamente, dera certo, eu não dormira, claro, mais minha mente ficou
em algum tipo de semi consciência, permitindo que minha mente acalmasse que
todos os pensamentos e perguntas cessassem, pelo menos por hora. Eu ainda
estava na mesma posição, virei a cabeça, para olhar a janela que por uma
pequena fresta pude contemplar a escuridão lá fora. Levantei-me da cama para
ter absoluta certeza, afastas as cortinas de uma única vez e lá estava a
escuridão sendo banhada pela luz da lua.
Lana,
Paul e Julio estavam lá embaixo, sentados cada um em uma cadeira; conversando,
pelo que pude ouvir pretendiam caçar essa noite, as outras coisas eram apenas
trivialidades, nada que pudesse importar-me, fechei as janelas me senti um
tanto deprimida insegura. Mesmo assim fui até o banheiro onde tomei um longo
banho, depois me vesti de modo simples. Apenas com uma calça jeans escura, e
uma blusa preta como um espartilho. Prendi meus cabelos no alto da cabeça, e
uma sandália cor de pele não muito alta finalizava meu visual.
Sai
dos limites da mansão. Por alguns instantes caminhei pelas ruas, sem um destino
certo, eu nunca tinha um destino certo. Olhei para o céu, sem estrelas, parei
por um instante e me concentrei em sentir a umidade do ar. Iria chover. Logo.
Minha atenção logo se desviou para a luz de um poste que piscava sem parar.
Arfei então o poste apagou de uma vez, continuei a caminhar, o poste seguinte
do outro lado da rua, piscou, e então instintivamente olhei para trás, a luz do
primeiro posto havia voltado sem qualquer problema aparente, então voltei a
caminhar e o que eu vi, ao teria me deixado assustada como de certo modo fiquei.
Agora todos os postes seguintes piscavamincessantemente.
À medida que os segundos passavam as luzes piscavam mais rápido até que tudo se
apagou. Minha visão logo se ajustou a nova escuridão então vi a silhueta de um
ser encostado em um dos postes ao longo do caminho. Caminhei até lá a passos
largos e determinados.
-
Allan? – as roupas negras faziam dele apenas uma sombra.
-
Ainda não sei controlar – Ele me disse – Mais não vai demorar muito até eu
conseguir controlar todos os poderes que ganhei – ganhar? Ele não havia
ganhado, ele havia feito uma troca estúpida isso sim. Quando ele conseguisse
controlar tudo, ele estaria por completo envolto nas trevas, era desse tipo de
trevas que Uriel dissera para Adriel, na noite da morte de Annie?
-
Quanto tempo? – Perguntei por fim.
-
Não muito – ele deu de ombros, dando-me as costas. E antes que eu pudesse
perguntar-lhe mais alguma coisa ele já havia sumido e junto com ele toda a
escuridão. Ele queria me deixar a par de seus avanços? Ou apenas queria provar-me que logo seria tão
poderoso quanto qualquer outro ser?
Não
importava. Mais se essa era o tipo de escuridão que Uriel falara Adriel corria
o perigo de perder as asas e Haboryn... Afastei esse pensamento, passei a mão
por meus cabelos, e a presilha que o prendia me impediu de embrenhar meus dedos
neles. Então os soltei. Passei novamente a mão por eles para que adquirissem a
aparência natural. Allan deveria ter praticado na velha casa, e foi para lá que
segui. Usei minha velocidade
sobrenatural para chegar. Em alguns segundos eu estava na porta. A muito eu não
usava minha empatia, e ali era sempre o melhor lugar para praticar. A Porta
estava aberta, então toquei a batente da porta. Um vento gélido, fez com meus
cabelos esvoaçassem. Olhei em direção a figueira que parecia um tanto sinistra
com seus galhos balançando de lentamente para uma única direção.
Apoiei-me
no batente da porta, um pouco mais a baixo e voltei minha atenção para a casa,
com todos os meus sentidos alertas, e o que vi me deixou alarmada. A casa estava
como nova, minha respiração falhou então pisquei duas vezes para ter certeza de
minha visão. Suspirei.
-
Não passou disso, uma visão – sussurrei para mim mesma, a casa continuava a
mesma velha e abandonada casa. Coloquei o pé para dentro e então vi alguma
coisa se mover, podia ser minha imaginação pregando-me peças novamente. Olhei
em volta e atrás de mim vi novamente a mesma imagem. Meus ouvidos pareciam mais
sensíveis, minha visão mais aguçada, farejei o ar e não havia outra presença
ali. Mesmo assim dei mais alguns passos, e dessa vez vi um homem de costas para
mim, que no mesmo segundo desapareceu. Minha empatia. Eu não havia percebido
mais eu tocara em um pedaço de jarro de flores quebrado em cima de uma mesinha.
Mais aquilo não parecia meus poderes, era mais que uma simples empatia, era
como se algum quisesse me mostrar algo. Alguém? Ou alguma coisa? Segui reto e então parei na porta que dividia
os cômodos e toquei o batente, então pude vê-lo novamente, olhou ao redor, as
imagens que eu vi eram outras, a casa parecia habitável, de repente pude ouvir
um sussurro, como se ele chamasse por alguém, talvez o dono da casa. Mesmo com
meus sentidos aguçados não pude entendê-lo. A imagem desapareceu, eu ainda
permanecia para junto à porta.
Dei alguns passos vacilantes, e a cada cômodo
eu o via comoo um fantasma, como se ele estivesse ali, ou como se eu estivesse
invadindo memórias que não eram minhas, tentei acompanhar os flashes da imagem
pela casa, mais eram rápidos continuei a ouvir seus sussurros sem compreendê-los.
Fui até a cozinha e lá estava ele, de costas para mim olhando pela janela que
dava ao jardim, que nada tinha a ver com o que é hoje. Agora pude observá-lo
melhor, suas roupas eram simples, como as de um camponês de outro século,
talvez do século 18. Ele abaixou a cabeça e a imagem desapareceu. Olhei ao
redor, mais não o encontrei em meio à cozinha em ruínas eu suspirei. O que era
tudo aquilo? Aproximei-me um pouco mais de onde ele estava a pouco e então pude
vê-lo novamente, agora de frente. Ele estava encostado na pia. Seu rosto... Ele
veio em minha direção com passos decididos, como se eu não estivesse em seu
caminho ele olhava para a mão esquerda, onde pude observar que de seu dedo
anular reluzia uma pequena jóia provavelmente sem valor.
Ele
continuou se aproximando e quando ele ficou a um passo de mim pensei que ele
pararia mais não foi o que aconteceu, eu me encolhi e fechei os olhos então
imagens passou por mim tornando-se fumaça,
e só então pude compreender o que ele dizia. Meg. Abri os olhos arfando.
Meg. O nome titilava em minha mente como um sino irritante. Nos fundos da casa
não mais existia um jardim apenas a mata, por onde persegui Annie. Meg. Ele
procurava por... Ela. Seu rosto quase que angelical como o de Adriel. Eu já o
vira antes, mais onde? Forcei minha mente. Por que eu não conseguia me lembrar
aonde o vira? Procurei recordar-me. Os flashes. Claro, ele se aprecia muito com
ele, não, era ele o homem que eu vigiei até sua morte. Ele esteve a minha
procura.
Cap 28
A
imagem do homem insistia em não se dissipar de minha mente. Por que ele me
procurava? E logo ali? Logo naquela casa onde tanta coisa aconteceu. E aquele
anel? Eu não queria saber o que eu signifiquei a aquele homem e o que ele
significava para mim, por mais que meu intimo fizesse uma idéia. Sai
apressadamente da casa, passando pela porta sem olhar para trás não queria
correr o risco de vê-lo novamente na porta, com um olhar pesaroso. Corri alguns
segundos e então um pingo de chuva tocou-me, parei em meio à estrada, olhei
para céu, as gotas pareciam cair em câmera lenta, voltei minha atenção para a
estrada então a chuva caiu de uma vez a chuva não era forte nada que pudesse me
incomodar.
Respirei fundo passando a mão pelo
rosto, eu precisava de um momento sozinha, eu precisava mais do que o refugio
do meu quarto, eu precisava do meu lugar preferido e foi para lá que me
encaminhei. Cheguei ao Lago Gander, deitei-me em meio às pedras do precipício.
Cobri meus olhos com meu ante braço e o que vi foi à imagem do belo rosto
olhando a aliança, e logo em seguida ele sentado em uma cadeira, rodando o anel
em seu dedo anular esquerdo.
A chuva era fraca sobre mim, mais
foi o suficiente para me deixar encharcada. Um leve ruído fez-me voltar à
atenção a minha volta. Adriel.
- Novamente na chuva. – ele disse
gentilmente. Esbocei um sorriso, mais permaneci em silencio por alguns
instantes antes de me sentar. – Você é forte, mais não imune - Ele fez o mesmo, sentou-se a minha frente,
deixando-me com a visão um pouco turva – Algo a aflige?
- Nada de mais – eu disse procurando ao
máximo me convencer, de que não era mesmo nada. Que aquelas imagens de nada
significava para mim. Ele levantou a mãolentamente, aproximando-se do meu
rosto, tive a impressão que ele me tocaria novamente, e eu não me esquivaria
nunca mais de seu toque, algumas poucas queimaduras não eram nada comparadas as
sensações. Mais me enganei, ele fechou a mão e a abaixou.
- Tem certeza? Pode me contar – ele fez
uma pausa –Confie em mim? – Ele disse como um sussurro. Voltei a sorrir mais dessa
vez um sorriso que demonstrava uma falsa felicidade.
- Eu confio em você, é que não esta
acontecendo nada. – Dessa vez acho ele acreditou, pois sua expressão relaxou
mais seu punho continuava fechado. – Mais você parece tenso. – Ele desviou o
olhar, fitou as águas do lago. Pensei por um instante que ele não me
responderia, que mudaria de assunto.
- Estou preocupado com Allan. Sinto-me fraco
perto dele, é como se eu não conseguisse interferir. – Ele olhou para as
próprias mãos, Allan estaria totalmente perdido? Sua alma não tinha mais
salvação, disso eu tinha certeza. O que ele estaria fazendo agora? - Eu estive com ele há um tempo – será que
ele me vira com ele? No momento em que eu o beijei? Não, se fosse assim, ele
teria comentado algo. Ele suspirou desanimado. – Sinto como... – Adriel ficou
imóvel, mais logo piscou e olhou para mim – Eu preciso ir. – Não era isso que
ele ia me dizer, eu tinha certeza.
Antes que eu pudesse, impedi-lo ou
perguntar o porquê, ele levantou-se e voou. O instante seguinte, fiquei ali
parada apenas observando a luz que de certa forma parecia mais apagada. Então
me levantei decidida a segui-lo. Embrenhei-me na mata perseguindo a luz
enquanto eu desviava das arvores em meu caminho. Olhando para cima, não prestei
atenção em uma arvore em minha frente e quase trombei, quanto me recompus eu o
havia perdido de vista. Mesmo assim continuei andando, ele devia estar perto.
Uma pequena claridade me vez andar com cautela. Aproximei-me da clareira,
ficando distante o suficiente para que eu pudesse ouvir e não ser percebida.
Adriel estava mesmo fraco, pois sua luz não podia ser comparada a do ser que
estava com ele. Uriel.
- Sinto por ter que ser tal portador
– a expressão de Uriel era gentil e pesarosa – mais não é a primeira vez que o
previno. - Eu havia perdido o começo da conversa, e Adriel estava de costas
para mim, não sabia qual era sua expressão. Eu não podia usar minha empatia
sentimentos angelical seriam de mais para mim. – Essa será a ultima vez que
venho preveni-lo, na próxima não haverá conversa.
- Uriel...
- Cuide de seu protegido, não se
envolva. – ele o interrompeu – Não se aproxime tanto dos mortais e seus
sentimentos – sua expressão tornou-se serena e então ele sumiu, como se ele
houvesse se tele transportado. Adriel continuou imóvel, quis correr para
ajudá-lo, para ver se ele estava bem. Dizer-lhe que tudo estava bem, que nada
de mal aconteceria com Allan, eu mentiria para ele se sentir melhor, eu era boa
nisso. Mais eu não o fiz, continuei ali, imóvel atrás da arvore, fitando suas
costas largas.
Suspirei. Logo tudo acabaria. Não senti
tanta convicção em minha afirmação. Mesmo assim eu torcia para que acabasse logo.
Adriel moveu-se e eu voltei minha atenção a ele, que já estava levantando voo.
Pela direção que ele tomou pensei que voltaria ao lago, então corri. Talvez ele
quisesse conversar com alguém.
Logo eu estava sentada com as pernas
balançando no penhasco, a chuva cessara a um tempo, mais ainda havia algumas
pequenas poças de lama ao redor. O tempo passou rápido e eu começava a focar
impaciente.
- O que eu ainda estou fazendo aqui? –
sussurrei – Ele não voltaria, não essa noite c- ao perceber que o nascer do sol
se aproximava, tinha certeza que não o veria. Onde ele estaria? Cuidando de
Allan? Provavelmente. Levantei-me pronta para voltar para mansão. Uriel tinha
razão ele estava envolvido de mais, talvez nem tanto com Allan mais como uma
suposta humana, eu. Eu não precisava de minha empatia para perceber o quão
envolvido ele estava comigo. A preocupação dele era mais o que a de um simples
anjo protetor, disso eu tinha certeza.
Se Allan soubesse que tinha um anjo as
coisas podiam ter sido diferentes? Talvez não. Seu desejo por poder era mais
forte. Desisti não voltaria a ver o anjo. Então voltei para mansão. Minhas
roupas ainda estavam molhadas então as tirei e tomei um banho. Vesti apenas uma
lingerie e deite-me na cama. Fechei os olhos. Tantas imagens apareceram atrás
de meus olhos que voltei a abri-los. Eram minhas recordações, ou a da casa? O
homem com o rosto preocupado, depois a imagem dele sentado em uma cadeira
velha, e do nada o rosto de Adriel surgiu, com um sorriso que sugeria um convite
a qualquer perdição. A minha. Um convite que me era negado. Olhei meus braços e
aquelas queimaduras provocadas por ele que o deixará tão preocupado já não
existia, havia apenas uma recordação, e um aviso que eu não devia ser tocada
por ele. Era perigoso. Não tanto como pensei que seria. A preocupação dele era
inútil, eu sei muito bem me cuidar. E quando por fim ele descobrir isso, espero
conseguir contornar a situação. O que será impossível.
Sempre disseram o quão eram perigosos
os filhos da luz e dos filhos da serpente. Adriel era um filho da luz, mais não
me matará, mais isso tinha uma resposta plausível. Ele estava fraco, ele mesmo
perceberá isso. O envolvimento com mortais era uma fraqueza que ele imortais
não deviam ter. Suspirei. Quais outros problemas surgiriam?
Pensando em tudo o que havia acontecido
desde a morte da primeira protegida, parecia que nunca teria fim. Allan deveria
morrer. Mais eu não o faria. Conclui que de certa forma eu ajudará Haboryn, de
modo indireto talvez. Mesmo assim eu tive uma grande participação em seja lá o
que vá acontecer daqui para frente. Meu desejo egoísta e insano de querer ao
Anjo provocara boa parte de sua fraqueza atual. Se os planos de Haboryn se
concretizassem o que ele faria? Aconteceria uma guerra entre as raças como
Silas uma vez previu? A porta se abriu
alertando-me.
- Calma Natasha – era Kimberly – posso
sentir o cheiro do seu medo e remorso de longe – ergui as sobrancelhas, ela
estava visivelmente mais poderosa, seu livro de magias a ajudara bastante.
Haboryn teria entrado em contato com ela? Não, pelo menos não depois dela tê-lo
expulsado de meu quarto certa vez.
- Do que você esta falando- perguntei
sentando-me. – Você tem que parar de ler tanto esse seu livro, você esta
ficando louca. – tentei esquivar-me.
- Ora Natasha, sei que esta se sentindo
péssima – ergui as sobrancelhas, então ela sorriu solidaria, entrando por fim
dentro do quarto e fechando a porta. –
sei que sente certo remorso.
- Remorso? – aquela constatação me deixou
horrorizada. Remorso era uma palavra que não constava em meu dicionário a
muito.
- Você não mais o reconhece? Nos últimos
tempos é o sentimento humano que você mais tenta abafar – ele enfatizo o abafar.
- Não Kimberly, você está errada, eu nunca
senti remorso. – eu queria desesperadamente acreditar naquilo.
- Claro, a velha Natasha sim, nunca sentiu
remorso já que ela nunca esteve em contato tão direto com humanos, anjos e
demônios. – Engoli em seco. Ela tinha
razão eu não era mais a mesmo, desde que tive um contato mais direto com outros
seres.
- Talvez esteja certa, - mesmo hesitante
concordei – Mais e daí, e mais fácil ignorar, do que encarar.
- Mais você consegue ignorar? – Desde
quanto ela se tornara tão... Tão difícil de contornar? Onde estava aquela velha
Kimberly com a expressão de tédio? – Não quer me contar?
- O que? – eu me levantei jogando meus
cabelos e indo até o banheiro – Você já não sabe? – em frente ao espelho apertei algumas mechas de meu cabelo de cima
para baixo, de modo que ele pudesse ficar moldado.
- Talvez...
– ela fez uma pausa dando a volta na cama e sentando-se perto da
cabeceira. – mais quero ouvir de você. – eu suspirei desanimada – Você precisa
conversar com alguém. – Desabafar? Aquilo era estranho, ela é minha amiga mais
a palavra que tomou conta da minha cabeça me fez recuar. Voltei ao quarto.
- Eu o ajudei... – eu disse em um
sussurro – sem que eu tivesse total consciência disso, uma vez ele pediu para
que eu o ajudasse com a queda do anjo, e agora acho que não falta muito. E eu
sou uma das ou a principal responsável. Já que ele possui sentimentos humanos,
por mim.
- Você vai se afastar? – ela perguntou
erguendo a sobrancelhas.
- Eu tenho mais não vou.
- Isso – ela se levantou com um sorriso – a
velha Natasha, egoísta, que só pensa em si mesma. – Será que ela estava me
dando um sermão ou me parabenizando por conseguir encontrar um pedaço da velha
Natasha? –Ela estava me parabenizando, conclui. - Viu tudo vai ser como antes.
– Ela mentia. Ficamos ali em silencio
por alguns segundos, Kimberly aprecia que havia congelado com um sorriso no
rosto. Então ela pendurou a cabeça pro lado - tem mais alguma coisa? – Ergui
uma sobrancelha.
- Talvez... – ela falava de Allan? Ou das
imagens que eu vira na velha casa? Ela poderia me ajudar? –
- Por que você acha que a queda é
inevitável? Por que do jeito que você falou é o que você pensa.
- Allan está envolvo a trevas de uma
maneira irreversível. Ele conseguiu o
que ele tanto almejava... Poderes
- Poderes... – Kimberly falou ao mesmo tempo
em que minhas palavras saíram, nos duas falamos baixo e saiu como em uni som.
- Adriel está fraco, ele mesmo sentiu a
diferença. – Kimberly não parecia alarmada, ela saberia o que fazer? – tem mais
uma coisa, uma que me deixou intrigada. Hoje eu vi algumas imagens, não sei dizer
são minhas recordações ou de outra pessoa que frequentou o velho casebre.
- Prossiga - Ela disse movendo a cabeça em
uma pequena referencia. Voltei a me deitar na cama e me cobri, mesmo sem sentir
frio.
- Eu vi um homem, era como se eu
estivesse lá mais eu não podia ser vista ou ouvida, era como se eu fosse um
fantasma. – Eu disse lembrando
nitidamente de casa imagem – o homem passava pela casa toda, como flashes. Mais
pude vê-lo muito bem. Ele procurava por alguém. Ele procurava por mim. E temo
que minhas suspeitas em relação a ele se tornem reais.
- Que suspeitas? – Ela disse
balançando a cabeça.
- O homem que vi no casebre é muito
parecido com um que eu vigiei até sua morte. Eles usavam uma aliança. – dei um
sorriso tenso em direção a Kimberly. – Eu sei que os dois são a mesma pessoa.
- Mais o que você teme?
- Descobrir o que realmente eu
signifiquei para ele, o porquê de eu ter ido embora. Temo descobrir o que ele
significava para mim. – acomodei-me
melhor nos tantos travesseiros que tinha em minha cama. – talvez eu tenha ido
embora, por que me transformei. Talvez seja isso.
- Você se preocupa de mais com coisas que
não são importantes – franzi o seno – mesmo que você descobrir o quem ele era
de verdade, você não poderá fazer nada. Como você o disse ele morreu. Você está
viva. Ao nosso modo mais viva. – eu ri.
Ela tinha razão. De nada me adiantaria descobrir as coisas do passado. Mesmo
assim por que tais recordações sejamlá de quem for apareceu justamente agora?
Depois de tantos anos?
- É você tem razão. Tenho problemas de
mais para conseguir mais um. Problemas que estão na minha porta. Deixando-me
louca.
- Resolva uma coisa de cada vez – ela disse
levantando-se – o passado se revolverá por si só. – Então ela abriu a porta e
saiu.
Como eu podia revolver uma coisa de cada
vez, sendo que tudo acontecia ao mesmo tempo. As coisas explodiam uma atrás da
outra, sem ao menos permitir que eu consiga resolver o problema anterior. Mesmo
assim ela tinha razão. O passo podia esperar. Pelo menos é o que eu esperava.
Suspirei. Rolei na cama procurando uma posição mais confortável, mais eu não
encontrei. Sufoquei um gemido ao me erguer e permanecer sentada com as pernas
esticadas. Passei a mão nos outros, então pude ouvir uma risada ao longe. Uma
que não reconheci à principal. A janela do meu quaro foi aberta bruscamente com
uma rajada de vento, aquilo não era normal a temperatura do vento que atingiu
meu rosto também não. E o arrepio que
senti na espinha confirmou que tudo não era obra natural.
- Muito bem minha querida Natasha
– Haboryn, eu não conseguia vê-lo, mais ele estava no meu quarto, ou talvez em
minha cabeça. – Vou ser sincero pode acreditar, eu não tinha tanta convicção em
relação a você, mais você provou ser merecedora do futuro que eu preparei para
você. – a risada demoníaca que ouvi a seguir-me fez arrepiar novamente.
- Ora Haboryn, do que você está
falando? – eu me levantei tentando mostrar uma tranqüilidade que eu não sentia,
me dirigi até a janela e as fechei.
- Você sabe muito bem do que
estou falando vampira – sua voz era seria. – Mesmo assim, vou dizer-lhe. Você
merece ouvir meus parabéns. Seu trabalho foi mais que perfeito, apenas falta
finalizá-lo. – sentei-me na poltrona procurei por ele com o olhar e não o
encontrei. Havia sombras de vários tamanhas e tipos mais nem uma que fosse ou
se parecesse com Haboryn. Ele não podia estar na minha cabeça. Ou seria eu a
imaginar essa conversa?
- Não enrole Haboryn, diga de uma vez. –
Eu disse nervosa.
- Como eu disse, apenas é preciso
finalizar. Estou a poucos passos da Terra em definitivo. E graças a você, você
fez com que o anjo pecasse. – As risadas
eram de total felicidade.
- Você disse que preparou um futuro para
mim. Posso saber qual? – eu disse estreitando os olhos.
- Não, se eu contar ele poderá mudar –
eram as mesmas palavras de Silas. – Além do que não foi propositalmente foi? –
Ele riu alto e outra rajada de vento fez com que as janelas de abrissem.
Cap 29
Mesmo com minhas janelas abertas,
ele não esteve em meu quarto. Minhas palavras foram pronunciadas em voz alta.
Mais e as dele?
- Falandu suzinha Natasha? – Melissa
colocou a cabeça na porta, com um sorriso debochado na cara, que combinava com
seu sotaque puxado e irritante.
- Não é da sua conta – eu gritei a
plenos pulmões, jogando a primeira coisa que vi na minha frente. Ela fechou a porta ainda rindo. Isso podia responder minha pergunta. Ele
esteve em minha cabeça. A entrada fora apenas uma encenação, ou algo do tipo.
Agora sim não conseguiria ficar um
segundo se quer parada. Essa visita apenas que serviu para deixar-me mais louca
do que eu já estava. Fui até meu closet,
de onde tirei uma roupa simples e me vesti, fui até a penteadeira e me olhei no
espelho, à imagem que eu via ali refletida não se parecia com a velha Natasha
de antes, com o olhar penetrante, segura de si e de seus atos. Suspirei. Em uma
das prateleiras ao lado, eu vi um amuleto que Kimberly me dera certo dia,
peguei-o e o apertei entre os dedos, antes de colocá-lo no pescoço e esconde-lo
por baixo de minha blusa.
Sai
do meu quarto, batendo à porta a trás de mim. Ainda era cedo, todos estavam em
seus quartos. Ou quase todos. Não tinha tanta certeza quanto a Kimberly. O
barulho de passos na escada fez me parar, e esperar para ter certeza de quem se
aproximava. Silas. Ele parecia abatido, mais quanto me viu sua expressão
tornou-se novamente serena, despreocupada.
- Algum problema Silas? – perguntei,
sabendo que alguma coisa o afligia.
- Não, por que acha que há algo errado? –
ele disse se aproximando, aproveitei o espaço entre-nos para aguçar meus
sentidos, principalmente minha empatia. Mesmo que ele aparentasse a mesma
expressão de sempre, eu estava em duvida.
- Nada, é que apenas está de dia, e você
não está sem eu escritório muito menos em seus aposentos. – sorri. Quando por
fim Silas se aproximou ele tocou-me no braço. Com meus poderes pude sentir
certa apreensão por trás de sua expressão congelada.
- Não tem nada para me disser Natasha?
– Silas tinha a mente aberta, ele me
tocara para obter informações sobre o futuro, mais quem teve informações fui
eu. Fingir pensar por alguns instantes, antes de balançar a cabeça.
- Não. Por que você viu algo? – eu disse
ironicamente, então ele me soltou. Entendi que esse era o grande problema, que
por isso ele tinha a expressão abatida, ele não havia visto nada. Estava cego
em relação ao futuro, o porquê eu não sabia. Então ele me soltou, como se eu o
queimasse. Sorri solidaria. Uma vez ele me ameaçara de tal modo que eu tinha
plena certeza que ele cumpriria sua promessa. Pensei tê-lo visto engolir em
seco. Não obtive resposta, ele apenas me deu as costas.
- Se precisar de mim, você sabe onde
me encontrar – foram às únicas palavras que ouvi, ao pé da escada, eu sabia
muito bem onde encontrá-lo.
Esperei ali parada em frente à
porta do meu quarto, até ouvir o barulho da porta do escritório sendo aberta e
fechada logo em seguida. Eu nunca virá Silas se encaminhar para seus aposentos.
Ele sempre estava em seu escritório. Em meio a seus pensamentos e papeis. Segui pelo caminho em que Silas acabara de
passar, mas ao invés de ir até seu escritório, encaminhei-me até a porta. Então
a abri, quando eu já ia fechando vi o rosto pálido de Melissa em um canto do
hall, uma fresta da janela estava aberta, e isso permitiu que o sol entrasse,
impedindo que ela ultrapassasse a linha. Ela começou a caminhar para trás
olhando-me com um sorriso nos lábios.
Eu poderia ter voltado e
ajudado-a com a janela. Mais não dessa vez, muito menos por Melissa. Fui até a
garagem, peguei meu carro e sai da mansão. Eu não sabia o que eu pretendia
fazer ao certo, mesmo assim continuei a dirigir em um rumo real. Passei por
frente da velha casa, diminui a velocidade, mais não parei as cortinas
moveram-se com o vento, pisei o acelerador. Onde estaria Allan, Dei uma volta
na cidade, antes de passar na casa de Allan, ele não estava lá. Mesmo assim fui
até seu quarto para obter a plena certeza.
O lugar de certa forma parecia organizado
de mais a não ser por algumas roupas espalhadas, alguns rabisco nas paredes e
espelhos. Eram mais como símbolos, que não pude identificar. Aproximei-me da
cama onde eu havia beijado Allan, onde eu fui correspondida com a mesma
intensidade, ou talvez até maior. E na cabeceira havia uma coisa que eu não
tinha percebido antes, havia uma cruz entalhada.
Continuei a olhar o lugar. Então vi o
caderno de desenhos de Allan em cima da cômoda. Peguei-os e fui até a porta
trancando-a. Sentei-me na cadeira da escrivaninha e comecei a folheá-lo. Ele não
havia desenhado mais nada. A última imagem era a minha. Mesmo assim terminei de
olhar todas as folhas em branco. A última folha me chamou a atenção, em vez de
desenhos havia algo escrito ali. As palavras estavam de cabeça para baixo então
virei o cadernos e comecei a ler.‘Tenho
plena certeza, pois eu posso sentir os poderes em minhas veias, Haboryn não me
tomará os poderes, não será como Natasha disse. ’ Era como se ele quisesse alguém para conversar, mais
sem opção utiliza o papel. Continuei lendo, eram coisas evasivas. Mais uma
coisa em um dos parágrafos me chamou a atenção. ‘ Haboryn me prometeu uma coisa será como um presente surpresa. Estou
curioso e receoso ao mesmo tempo para recebê-lo. Aceitarei de bom grado, o que
eu tenho a perder? Ele diz que será logo. Que não demorará muito e que enquanto
isso, devo aperfeiçoar meus poderes. Onde Allan poderia estar treinando
tais poderes? Não havia mais nada
escrito ali que pudesse me dar uma pista.
Mais
o melhor a fazer é procurá-lo por conta própria. Sai do quarto dele, olhando
pela janela antes de pular. Meu carro estava uma rua a baixo, então caminhei
até lá. Entrei e dei a partida. Allan não estaria na escola, já que todos seus materiais
estavam em seu quarto. Eu tinha a impressão que seus pais não tinham ideia que
ele não estava fora de casa.
À noite eu voltaria uma hora ele teria
que voltar para casa. Ele ainda era um humano e precisaria de uma noite de
descanso. Haboryn não tomaria os poderes de Allan, para que? Os poderes seriam
dele. Se eu entendi bem, esse era o presente que Haboryn queria dar a Allan,
iludido do modo certo aceitaria de bom grado. Como ele disse; ele não tinha
nada a perder, já que sua alma já era de Haboryn. Mais quanto logo, Allan
receberia esse ‘presente’?
Quais
eram seus planos na terra? Perverter a humanidade, assassinatos a sangue frio.
Ou apenas uma chance de estar na Terra como Djin? Não se fosse esse o caso, ele
não precisaria de todos seus poderes. E
o que ele preparará para mim. Pelo modo como ele disse, estava tudo preparado.
Allan, Adriel. Mais e o Will, o que aconteceria com ele? Haboryn o ajudaria de
alguma forma? Perguntas que logo seriam respondidas. Com tantas perguntas deixando minha mente
ocupada, não percebi que passava por frente ao cemitério All Saints Cemetary. Desci do carro, e então vi que o nível de
mortalidade vinha aumentando consideravelmente.
Com
os problemas girando apenas em torno de Gander, nos não mais viajávamos para
caçar. Alimentávamo-nos aqui mesmo pelas redondezas. Sem maiores preocupações. Eu já não sabia
nada sobre as tais investigações da policia. Outros mortos foram encontrados
claro. Mais não havia suspeitos. Apenas o medo da população. Caminhei por entre
as lapides procurando por uma. A do Erick. Ele não estava ali, talvez só
aparecesse à noite. Mais e durante o dia? Lembro-me de tê-lo visto em um
hospital, o que é improvável, seu corpo ainda estava embaixo da figueira. Observei
a foto na lapide. Quem ele pensava que estava ali? Bruno?Ele tinha uma
recordação de um suposto acidente. Que matara seu amigo. Era estranho vê-lo
chorar sobre o próprio tumulo.
Não
tinha o que fazer aqui, eu não sabia ao certo por que eu pararei aqui. Comecei
a caminhar de volta a meu carro. Entrei no carro e dei a partida. Enquanto dava
uma volta pela cidade, parei nos lugares que eram considerados obscuros, a luz
do dia. Tentando em vão encontrar com Allan. Depois de passar algumas horas
rodando a cidade, desisti à noite eu o procuraria em sua própria casa, e no
velho casebre. Se não o encontrasse iria ao lago, talvez se eu encontrasse com
Adriel ele saberia me disser. Pensando em como Allan pode sumir, esqueci-me das
ruas. Quando dei por mim eu estava a frente da mansão de Christine. Desci do
carro e fui até a porta, olhei para a cozinha e para a sala, ela não estava
ali, então a chamei, não houve resposta, tentei novamente. Dessa vez chamei por
Christine e John. Ninguém. Mesmo assim dei a volta na casa eu podia sentir o
cheiro de Christine.
E nos fundos da mansão estava ela
em um estado letárgico, com os olhos abertos levemente arregalados,
aproximei-me sem fazer barulho. Ela devia ter se ‘alimentado’ recentemente,
pois sua pele parecia mais jovem do que nunca. A expressão dela demonstrava que
seja lá o que ela estava fazendo era importante. Ela respirou fundo mais sua
expressão era a mesma. Logo ela arfou, o movimento do seu peito começou a
aumentar como as batidas de seu coração, que parecia que pararia a qualquer
momento. Então ouvi que parecia uma batida mais longa. Seus belos olhos azuis
adotaram um azul mais profundo, mais vivo então seus olhos se fecharam. As
batidas de seu coração já se normalizavam.
- Logo... - ela sussurrou abrindo os
olhos lentamente. Continuei ali imóvel, enquanto ela continuava na mesma
posição com as pernas cruzadas com as mãos sobre os joelhos e com um tipo de
tina a sua frente. – Será logo! – ela voltou a dizer suspirando – venha
sente-se aqui Natasha – as palavras me pegou de surpresa, ela olhou para mim e
sorriu. Fiz o que ela me solicitou, ela me acompanhou com o olhar até que me
sentei a sua frente. – Tem algo que queria me dizer? – sorri, assentindo com a
cabeça.
-
Preciso que você veja meu passado não sei... – fiz uma pausa – é que tive a
visão de algumas imagens recentemente, no velho casebre. Era um homem que
procurava por Meg, procurava por mim. Ele tinha uma aliança no dedo. E eu quero
me lembrar. – Contei a ela detalhadamente as imagens que vi no velho casebre,
para depois sem uma pausa para que ela pudesse falar contei sobre Adriel, que
eu podia sentir que ele estava fraco que ele mesmo sentia isso, atropelei os
acontecimentos. Falando de Allan, do que eu havia ligo a pouco em seu quarto. –
respirei fundo parecia que eu estava falando comigo mesma. Então eu perguntei a
ela - O que será logo? – ela forçou um
sorriso.
- Você sabe o que será logo! – ela fez
uma pausa e eu assenti como seno franzido.
- Eu sei que logo Haboryn estará na
Terra, apenas ainda não entendi o que ele está esperando.
- Nem eu Natasha, nem eu. Ele está
pronto, seu receptáculo também. E como você mesma me disse o Anjo está
debilitado. Não sei o que ele espera. – ela pareceu pensar por um instante. –
Mais não é só isso.
- E o que mais seria logo?
- Você sabe Natasha. – ela me olhou no
fundo dos olhos. Christine como sempre tinha muita paciência comigo, então ela
suspirou – Logo você saberá de tudo Natasha, logo cada mistério se resolvera
logo você saberá sua participação em relação com todas essas perguntas que
rondas sua mente. Logo Allan não mais
existirá e Haboryn estará em seu lugar, para oferecer-lhe todos seus desejos. –
Ela disse com um sorriso solidário, mais eu podia sentir sua tensão por baixo
daquela mascara que ela teimava em usar.
Ela tinha razão Allan não mais existiria,
eu tinha plena consciência disso mais eu tentaria impedir. Claro que eu
precisaria da ajuda dele. E qual minha importância em tudo isso?
- Não, Natasha, você sabe que no intimo não
poderá ajudá-lo, não mais. Você sabe sua importância nessa historia toda. Você
não é apenas uma vampira intrometida como você se denomina. Você é uma peça tão
importante quanto Adriel ou Tayler.
- Tayler?
- Sim, você se lembrará dele e de tudo. A imagem
que você viu no casebre, não era seus poderes por terem tocado os moveis ou
qualquer outra coisa. Eram suas próprias lembranças. Antigas, logo depois de
você ter sido transformada. Lembrar-se-á do quão importante o homem que você
viu era para você e vice versa.
- Tayler – eu sussurrei para mim mesma,
olhando minhas mãos. – se são recordações de minha pós transformação por que eu
não me lembrava?
- Por que você simplesmente quis
esquecê-las, bloqueando todas e quais querem imagens desse homem.
- Preciso ir. Eu não precisava, eu não
tinha para onde ir, naquele momento eu estava confusa e curiosa. Quando eu me
lembraria? Eu já me levantava para ir embora, quando Christine também se
levantou dizendo. – Prepare se Natasha, por que uma guerra se aproxima, esteja
com seus pensamentos e sentimentos em ordem. Procure ficar do lado certo.
- E quais serão esses lados? – esperei
por uma resposta que não veio. Olhei para ela. Ela recolheu a tina.
- Você saberá na hora certa. – Droga, mais
perguntas sem respostas. Se eu ficasse ali sairia mais perdida de quando
cheguei. Então sai a passos apresados. Mesmo sem qualquer pressa. Eu precisava
organizar meus pensamentos? E por onde eu começava. Meus sentimentos estavam
uma verdadeira bagunça, não conseguia nem definir os meus sentimentos em
relação a Allan. Entrei no meu carro e fiquei ali, com as mãos no volante
encostando a testa em minhas mãos.
Christine sabia de muitas coisas, por
que ela não me contava tudo de uma vez? Por que deixar eu me torturar com
perguntas sobre o passado, presente e o futuro? Sim era uma tortura quando eu
descobriria minha participação em tudo isso. E o que Haboryn esperava para vir
a Terra? Eu não conseguiria organizar meus pensamentos. Entrei no carro. Eu
poderia ficar ali, até que a guerra, ou seja, lá o que fosse acontecer
começasse mais eu precisava me preparar. Concentra-me em minhas prioridades e
procurar por todos aqueles que estavam envolvidos talvez Christine estivesse
certa eu não poderia impedir, mais eu podia tentar. Com esse pensamento parti
para o Lago.
O que eu tinha a perder? A ‘confiança’
para Haboryn um futuro esplendido? Eu passei minha vida toda sem isso eu podia
muito bem continuar sem ele. Além do que ele é um demônio e como tal dele deve usar suas artimanhas para conseguir
o que quer. E se ele deseja algo de mim, preciso ficar atenta. Já que o ajudei de certa forma, mais não
podia culpá-lo não dessa vez, eu e meu egoísmo fomos fontes da fraqueza momentânea
do anjo. Essa é a minha participação em tudo isso, mais era obvio demais. O sol
estava forte o que me deixava em um estado de sonolência, por isso decidi que
não sair do carro até que o sol abaixasse.
As horas foram passando e quando por
fim a noite chegou não houve a presença do anjo eu não podia ficar ali o
restante da noite, era preciso encontrar Allan. Em meio ao caminho em um beco
vi um rapaz todo trajado de preto. Estacionei o carro de mau jeito saindo
apressadamente do carro para não perdê-lo de vista. E em segundos eu estava ao
lado de Allan. Ele parecia maior, mais alto, mais forte.
- O que quer Vampira? – ele estava de
costas para mim, mais logo ele se virou, seus olhos adotaram um tom escuro, a
ires de seus olhos tomou conta de quase todo azul, como olhos de um gato.
- Precisamos conversar Allan – eu disse com
o seno franzido, como num sussurro, então toquei seu braço sobre a roupa. Mais
ele esquivou-se bruscamente.
- Não, Não precisamos. Deixe-me em paz – ele
deu um sorriso diabólico - nada do que me disser vai mudar qualquer coisa
entendeu? Nada. – ele começou a caminhar.
- Allan espere – fui atrás dele, tarde de
mais ele foi envolto pelas sombras então ouvi uma voz com cordas duplas.
- Logo, Natasha, logo! – e uma risada
perversa.
Allan já não era o mesmo, ele parecia
revolto, eu tinha algo a ver com aquilo? Eu era culpada disso também? -Droga, - praguejei baixinho, Allan sumira no
ar e junto com ele o meio mais fácil de encontrá-lo seu cheiro. Voltei para
onde eu deixara meu carro e um guarda acabara de sair e perto dele. Ele deixara
uma multa no meu pára-brisa eu estacionara de qualquer jeito e em frente a um
hidrante. Eu podia pega-lo pelo pescoço e matá-lo ali mesmo na frente de
todo, mais ao invés disso peguei o papel
e o amassei com raiva.
Uma hora mais tarde eu estava nos jardins da
mansão e de lá eu podia ouvir as conversas paralelas e algumas tensas dos
outros vampiros. Silas não participava de nem uma, nem Kimberly.
***
Os
dias que se seguiram foram estressantes, minha mente ainda não encontrara um
ponto seguro, eu ainda procurava por Allan as noites ia até o lago na esperança
de encontrar com Adriel, em vão. Talvez eu nunca mais o visse. Mesmo assim
todos os dias eu fazia as mesmas trajetória para quando a dia estivesse
nascendo eu voltasse para a mansão. Que não importava a hora do dia ou da noite
estava silencioso como se apenas eu vivesse ali, eu e meus pensamentos.
Os
cantos da mansão pareciam mais obscuros, os cantos irritantes dos pássaros não
mais eram ouvidos. A minha visão as pessoas pareciam andar e câmera lenta e com
os passar dos dias elas iam diminuindo. Todos estavam sendo afetados mesmo sem
saber o que aconteceria em breve. Já se passará duas semanas desde que em
encontrará com Allan no beco. Já passava duas semanas que minha vida se tornou
monótona e se eu tivesse um coração ele estaria pesado nesse momento.
Eu
temia algo, algo que ainda não aconteceu. Eu estava perdida no tempo. Não sabia
ao certo que dia era hoje, fiz algumas contas mentalmente e presumi que era dia
vinte quatro de dezembro, véspera de natal e das festividades humanas. Nessa
noite como as outras eu sai e fui atrás de Allan, Em vão claro. Fui ao lago e
novamente não encontrei com Adriel. Mais dessa vez mudei não esperei até o amanhecer,
fui mais cedo para mansão. E no caminho algo no velho casebre me chamou a
atenção.
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